Ad vitam

Saturday, July 15, 2006 | 2 Comments

Amo devagar os amigos que são imensos como as ondas
Os amigos que enlouquecem e estão sentados,
os que caminham e se aventuram,
fechando os olhos,
nos cincos dedos do meu gesto.
Com os livros atrás a arder na eternidade,
no vagar do tempo,
Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De amor.

Muitas janelas abertas e Saramago parece gostar de janelas. Já alguém o disse, bem sei.
Falo das Intermitências da Morte.
E se a morte deixasse de matar?
Eis o mote para a reflexão ampla sobre a vida, a morte, o amor e o sentido, ou a falta dele, da nossa existência.

E se...
Se a morte um dia amasse? Porque é que amar tudo suspende à sua volta?
Porque é que amar parece fazer mudar a nossa alma de casa?

Fica o mote para uma leitura única e intimista. Pois se há algo em que parece estarmos irremediavelmente sós é nesse momento derradeiro.

Livros de Encantar

Friday, July 14, 2006 | 3 Comments

Ontem recordei como via o mundo quando era mais pequena.
O meu pai era enorme. O meu avô também. Pareciam os grandes entes que carregam os pequenos Hobbits pela Terra Média. Assim me sentia em cima dos seus ramos quando passeavam comigo aos ombros para que visse melhor lá de cima.
Á noite, à lareira, gostava de me contar histórias que inventava.
O meu avô contava-me de como o mundo tinha começado e de como noutros tempos devíamos ter sido algo parecido com peixes pois continuamos a nascer de dentro de água. Alguma coisa estaria relacionada. Descobri mais tarde que um filósofo pré-socrático tinha exactamente a mesma teoria. Fiquei maravilhada. As coisas que o meu avô sabia.
Mais tarde descobri que as suas teorias acerca da origem dos planetas e da vida também tinham tido desenvolvimentos geniais por pessoas instruídas. Sim, porque o meu avô só saía da sua quinta na Serra da Estrela tantas vezes quantas tinha de ir ao mercado vender frutas, legumes, azeite, queijos e pães e outras tantas iguarias que cultivava ou quando era obrigado a ir à Covilhã tratar de alguma burocracia.
Mal escrevia o seu nome e nunca leu nenhum livro. Também não tinha televisão e tão pouco água canalizada ou electricidade. Mas isso não o impediu de observar o mundo à sua volta com olhos de ver e usar a sua encantadora arte de contador de histórias para pensar alto.
Ontem desfolhei essa página do livro que guardo dentro, cheio de tesouros e lembranças doces.
Olhava o céu e lembrava-me das mãos fortes e sujas a cheirar a amoras que me seguravam com a suavidade de dois longos ramos, acima da sua cabeça. Lembro-me dos meus dedos sobre a sua cabeça cheia de madeixas branquinhas que pareciam penas de pássaros e de falar e rir muito, muito alto.
Ontem abri essa página num rasgar de luz e azul.
Recordei-o em silêncio, num silêncio cheio, a transbordar de cheiros silvestres e risos cristalinos.
Passou-me por instantes a dor aguda de ansiedade que toda a tarde me perseguiu.
Há coisas que nos curam.
As boas recordações são uma delas.

Um pouco mais...

Friday, July 14, 2006 | 3 Comments





















Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada
-Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
Álvado de Campos

O amor é outra coisa...

Thursday, July 13, 2006 | 3 Comments

O amor não é algo que te faz sair do chão
e te transporta para lugares que nunca viste.
O nome disso é avião.
O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa que escondes dentro de ti e guardas na intimidade.
Isso chama-se vibrador tailandês de alta qualidade.
O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa que te faz perder a fala e a respiração.
O nome disso é bronquite asmática e ataca o pulmão.
O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa que chega de repente e te transforma em refém.
Isso chama-se talibã, entre Israel e Belém.
O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa que voa alto no céu e deixa a sua marca por onde passa.
Isso chama-se pombo com desinteria e se te apanha é uma desgraça.
O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa que tu podes prender ou abandonar quando bem entenderes.
Isso chama-se cão, e se o fizeres não tem perdão.
O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa que te iluminou,
pôs-te ver estrelas e deixou em ti a sua marca, fez-te feliz.
Isso chama-se cirurgião e o que deixa é cicatriz.
O amor é outra coisa.

O amor não é coisa que se perca,
ou que se faça questão.
O nome disso é prolocolo ou declaração.
O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa que desapareceu e que,
quando encontras, muda todo o teu campo de visão.
Isso chama-se controlo remoto de televisão.
O amor é outra coisa.

O amor é simplesmente...

Amigo!

Wednesday, July 12, 2006 | 0 Comments

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo!
"Amigo" é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

"Amigo" (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
"Amigo" é o contrário de inimigo!
"Amigo" é o erro corrigido
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada!

"Amigo" é a solidão derrotada!
"Amigo" é uma grande tarefa,
É um trabalho sem fim,
Um espaço sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
"Amigo" vai ser, é já uma grande festa!"
Alexandre O'Neill

Wednesday, July 12, 2006 | 0 Comments

Hoje, há balões que se enchem. São a promessa da continuidade. Para já são a raiz da nossa força e determinação no cravar de um sulco até ao entusiasmante local onde queremos chegar, para partir novamente. Para já enchem apenas o peito para ir fazer futuro, para ir ganhar o vento e a vida, até ao que queremos ser, até ao que havemos de ser, até à origem do amor.

O mundo ao lado...

Tuesday, July 11, 2006 | 0 Comments

Poderá isto ser amor?

Para quem alguma vez desfolhou, nem que por obrigação curricular, o Cap. VII da República de Platão e se defrontou com a alegoria da caverna, poderá este post fazer algum sentido, sobretudo pelo que antes parecia espreitar envergonhadamente por cima de cada página voltada e que agora aparece, inquietantemente, a saltar-me aos olhos para onde quer que me vire.

A “alegoria da caverna” exprime uma radical prisão de perspectiva, que à primeira vista parece totalmente estranha à nossa situação. Essa prisão distingue-se pelo carácter extremo da finitude que possibilita e ao mesmo tempo também pelo modo como faz que essa perspectiva tão radicalmente finita pareça dispor de um amplo “conhecimento” da realidade. De facto temos constantemente a crença de domínio sobre a realidade que nos rodeia. Desde a nossa casa, as nossas coisas, as pessoas que conhecemos, os sítos que frequentamos. A nossa perspectiva natural é de domínio, de segurança, de conhecimento. Daí que emitamos juízos a torto e a direito sobre os outros, sobre o que achamos das suas acções, sobre sítios e outras tantas realidades de que apenas conhecemos minúsculas partículas do que poderão ser. "Conheço fulano." "Conheço Paris." "Conheço a minha rua."
Se fizermos esse exercício de familiariedade constatamos exactamente a amplitude que julgamos conhecer bem e que nos permite a manutenção do nosso dia-a-dia.
E qual a relação com a Alegoria da Caverna? Não vivemos nós cientes da realidade, dominadores da mesma, confortáveis e seguros perante os nossos juízos acerca de tudo o que nos rodeia? Assim é. Assim parece.

A alegoria da caverna exprime uma inquietante situação. Passo a transcrevê-la:

"Depois disto – prossegui eu – imagina a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta, de acordo com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no género dos tapumes que os homens dos fantoches colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles.
– Estou a ver – disse ele.
– Visiona também ao longo deste muro, homens que transportam toda a espécie de objectos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados.
– Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas – observou ele.
– Semelhantes a nós – continuei -. Em primeiro lugar, pensas que, nestas condições, eles tenham visto, de si mesmo e dos outros, algo mais que as sombras projectadas pelo fogo na parede oposta da caverna?
– Como não – respondeu ele –, se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida?
– E os objectos transportados? Não se passa o mesmo com eles ?
– Sem dúvida.
– Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles julgariam estar a nomear objectos reais, quando designavam o que viam?
– É forçoso.
– E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa, senão que era a voz da sombra que passava?
– Por Zeus, que sim!
– De qualquer modo – afirmei – pessoas nessas condições não pensavam que a realidade fosse senão a sombra dos objectos.
– É absolutamente forçoso – disse ele.
– Considera pois – continuei – o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objectos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objectos mais reais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objectos que passavam, o forçassem com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporia que os objectos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe mostravam?
– Muito mais – afirmou.
– Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar refúgio junto dos objectos para os quais podia olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam?
– Seria assim – disse ele.
– E se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não o deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do Sol, não seria natural que ele se doesse e agastasse, por ser assim arrastado, e, depois de chegar à luz, com os olhos deslumbrados, nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros objectos?
– Não poderia, de facto, pelo menos de repente.
– Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior. Em primeiro lugar, olharia mais facilmente para as sombras, depois disso, para as imagens dos homens e dos outros objectos, reflectidas na água, e, por último, para os próprios objectos. A partir de então, seria capaz de contemplar o que há no céu, e o próprio céu, durante a noite, olhando para a luz das estrelas e da Lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e o seu brilho de dia.
– Pois não!
– Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a sua imagem na água ou em qualquer sítio, mas a ele mesmo, no seu lugar.
– Necessariamente.
– Depois já compreenderia, acerca do Sol, que é ele que causa as estações e os anos e que tudo dirige no mundo visível, e que é o responsável por tudo aquilo de que eles viam um arremedo.
– É evidente que depois chegaria a essas conclusões.
– E então? Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação, e do saber que lá possuía, dos seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que ele se regozijaria com a mudança e deploraria os outros?
– Com certeza.
– E as honras e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prémios para o que distinguisse com mais agudeza os objectos que passavam e se lembrasse melhor quais os que costumavam passar em primeiro lugar e quais em último, ou os que seguiam juntos, e àquele que dentre eles fosse mais hábil em predizer o que ia acontecer – parece-te que ele teria saudades ou inveja das honrarias e poder que havia entre eles, ou que experimentaria os mesmos sentimentos que em Homero, e seria seu intenso desejo "servir junto de um homem pobre, como servo da gleba", e antes sofrer tudo do que regressar àquelas ilusões e viver daquele modo?
– Suponho que seria assim – respondeu – que ele sofreria tudo, de preferência a viver daquela maneira.
– Imagina ainda o seguinte – prossegui eu -. Se um homem nessas condições descesse de novo para o seu antigo posto, não teria os olhos cheios de trevas, ao regressar subitamente da luz do Sol?
– Com certeza.
– E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar a vista – e o tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso, e não diriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista, e que não valia a pena tentar a ascensão ? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam ?
– Matariam, sem dúvida – confirmou ele."
República, Livro VII, 514a-517c

O anticristo!

Monday, July 10, 2006 | 0 Comments

Ele entra em todas as casas de família, conquista as criancinhas com as suas mensagens subliminares nas suas cançõezitas de refrão fácil e música tirolesa gay. O jantar fica a meio, o pijama por vestir e a novela tem de ser dramaticamente interrompida (o que vale é que a seguir de uma há sempre outra).
Tem uma carita sorridente e aparentemente inofensiva, não fuma, não bebe, e é um cidadão exemplar com um carrito para contribuir alguma coisita para o IA e para as petrolíferas. Resolve tudo com simpatia irritante sem ajuda de psicólogo nem narcóticos anti-depressivos. Usa calções o ano inteiro sem o mínimo de sentido estético e mesma blusa todos os dias o que em termos de higiene é inominável e um gorro com um guizo à cabrito monteza.
É este, meus amigos, que deixa as criancinhas histéricas a chorar baba e ranho nas prateleiras do continente enquanto os pais se tentam servir do carrinho das compras para discretamente as deixar inconscientes. É este que é capaz de convencer os vossos filhos a arrumar o quarto num episódio depois de a mãe se ter esmifrado a ler livros de psicologia infantil sobre técnicas de negociação sem impacto negativo na constituição da personalidade, a comer a sopa apenas com uma frase e uma gargalhada depois dos três pares de estalos educativos e um chão cheio de cuspidelas.
Não há exorcista veterano capaz de erradicar qualquer espírito de joanete inchado que tenha resposta a esta força maligna. Ele veio para ficar, acautelem-se e protejam os vossos anjinhos inocentes, ou melhor protejam-se deles!

Foreigner

Sunday, July 09, 2006 | 0 Comments

Deixei que os teus olhos me rasgassem e a tua boca me roubasse o último fôlego. Que as asas se quebrassem e o voo fosse rasto de destruição.
Ouço o incêndio, a música alta e atordoante como o torpor fabril metálico das pulsações aceleradas. O suor interrupto da voluptia inebriante. Ouço quem se ama onde o amor não há – apenas o clandestino abrir do portão dourado ante uma porta cerrada. Ouço o rasgar dos mapas, o corte do dedo apontado como lança de bronze na mão de vastidões adversas. O entulho os restos de existência, desdobrada a raiz, a heresia, a sábia recriação do filhos arrancados ao útero do rancor e da linfa. O arrastar dos pés como arados. A luz difusa. Os barcos segregados na vastidão do mar. Ainda a medo desagrego essa centenária paz dos homens, onde os ouço, e por onde quer que passe sou apenas essa sombra sem corpo como se as minhas origens fossem compradas do terror de não existir em ninguém, de ser um estranho em todas as terras, até na minha casa, até nos teus braços. Quando niinguém nos reconhece o rosto ou o nome, é como se nao existissemos em lugar nenhum...

Hora

Friday, July 07, 2006 | 1 Comments

Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta - por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

O abraço....

Thursday, July 06, 2006 | 0 Comments

Quando tudo o resto falha, quando a manhã acontece, quando os joelhos se abrem, quando o sorriso enfraquece, quanto o pulso vacila, quando a voz enrouquece, quando o meu nome se dissolve, quando nada apetece, quando os sonhos se desfazem e a coragem se desvanece....
.... nos teus braços me refaço, sem palavra nem silêncio, apenas a ternura de quem brandamente segura um corpo dissolvente.
Nos teus braços me refaço, sem ira, sem dor, sem embaraço e....
.... lentamente como quem em pétalas se desprende.....
deixo-me vestir de outra roupa por mãos de estranha gente e a pele que era de rosa noutra flor se reaprende.

Learning...

Thursday, July 06, 2006 | 0 Comments

Ensina-me outra vez o nome das coisas que perdi, dos gestos que me escaparam no esforço da subida, ensina-me a adormecer sem sobressaltos, a caminhar sem espreitar por cima do ombro. Ensina-me a amar de um só fôlego sem medo da queda, sem máscaras de couro negro cozidas por dentro a arame farpado. Ensina-me a não esperar de mim mais que a destruição do que toco à minha passagem. Ensina-me tão doce, tão somente, esse tesouro da pastora de rebanhos e da imperatriz, ensina-me, meu amor, a ser feliz...

Without skin

Wednesday, July 05, 2006 | 0 Comments

Do anjo fez-se o homem e do homem o demónio.
As asas que eram vento são acutilantes ossos chupados pela fúria do esgar tão breve e cínico como um golpe nos pulsos mais delicados.
Da beleza que era celestial fez-se a sangrenta massa dos dias no arrastar dos pés e no genocídio da diferença.
O rumor apenas, lancinantes gritos agudos das gárgulas pelos céus de chumbo onde se afogam os corpos dos que levantam os olhos do chão.
Do anjo fez-se o demónio e do demónio o homem.

Uma vidinha atinada

Wednesday, July 05, 2006 | 0 Comments

tão jeitosinha que ela era. tão boa rapariga. nunca deu dores de cabeça aos pais. chegou sempre a horas a casa. era para a melhor aluna da turma. limpava a casa aos sábados de manhã e à tarde ajudava os padrinhos nas contas da casa e lia à tia octogenária a carta dos filhos emigrados em frança. empregou-se e comprou logo uma casinha (apartamento) muito jeitosinha, assim como ela, nos subúrbios ajardinados da cidade. era assídua e pontual em educado silêncio. tinha duas contas no banco – numa depositava o cheque do ordenado e orientava-se para, na outra conta, depositar um montante certo todos os meses, o seu pé-de-meia para alguma infelicidade desta vida. era mesmo uma rapariga muito atiladinha. os vizinhos dos pais perguntavam-lhes sempre "então… ? como está a nossa Gracinha?". um moço. nem por isso mal-jeitoso. mas nada jeitosinho da vida dele. assim para o desorientadito. a Gracinha achou-lhe graça, o que se há-de fazer? as coisas do coração são assim mesmo. não se manda nos sentimentos. lamentou a possibilidade de dar um desgosto aos pais quando oficializou que o seu coração pertencia ao moço. espantou-se da ausência de espanto dos pais. o namoro era a modos que um namoro. o moço parecia ter boas intenções a até lhe dizia que o seu coração era dela. não falava em casamento. Gracinha, por vezes, à noite, na sua cama de lençóis devidamente engomados, arriscava-se lamentar o atraso no pedido de sua mão. mas tanto que gostava do rapaz nem por isso mal-jeitoso, mas nada jeitosinho da vida dele, assim para o desorientadito, tanto, que não arriscava o tema - casamento. mais vale um pássaro na mão do que nenhum a voar. era rapaz trabalhador. tratava-a bem. almoçavam fora aos domingos. deixou-se andar e manteve-se assídua e pontual no trabalho. as contas bancárias sempre orientadinhas. lamentavelmente, um mal-fadado dia, o moço, o tal rapaz nem por isso mal-jeitoso, mas nada jeitosinho da vida dele, assim para o desorientadito, disse-lhe que seguia para a Nova Zelândia num projecto musical que não podia deixar escapar da sua existência. orientou-se à sua maneira, o moço. Gracinha, assim, viu-se sozinha, sem passarito na mão. qinda se tivesse tido um casamento e um menino para consolo. mas nem isso para entreter a existência em tricotadas roupinhas e lamentações. Gracinha pensou nos seus pais, eram já sexagenários. sem um amparo na velhice. despediu-se. vendeu a sua casinha (apartamento) muito jeitosinha, levantou o dinheiro da conta pé-de-meia e voltou para a vila onde nasceu. chegara o tempo de tomar conta dos papás. chegou a casa. abriu a porta com a sua chave (ainda possuía uma chave de casa dos seus pais, nunca a entregara de volta). encontrou um bilhete que dizia “Gracinha, se vieres cá a casa, deverás reparar que não estamos, fomos numa excursão às caraíbas. voltamos por altura do Natal”. Gracinha meteu-se no carro, compondo a sua camisa amarelo desmaiado. pegou no mapa e traçou o melhor caminho de regresso. ao parar nos semáforos gemeu. AVC. morreu instantaneamente. não sofreu.

"A adequação do traje de trabalho tem a ver com a actividade, com o local e o horário em que será usado. Se não for um uniforme obrigatório, segue o que se recomenda para o traje em geral: considerar a idade e o físico da pessoa, combinar com a cor dos seus cabelos e da sua pele. Mas neste caso a roupa de trabalho, sofre ainda mais alguns controles: deve guardar uma certa harmonia de nível entre os empregados no sentido de que algum deles não exceda em luxo aos colegas, e sobretudo ao chefe. Porém, não há medidas para o bom gosto. Este não depende de luxo nem precisa respeitar hierarquias. No trabalho, é considerado inadequado para a mulher roupas que são coladas ao corpo, curtas e sem mangas, com decotes grandes ou em tecidos transparentes ou brilhantes; a blusa deve ser opaca o bastante para esconder as costuras e alças do sutiã. Tecidos grossos demais, certos conjuntos de jeans, veludos, roupa de couro, parecem diminuir o dinamismo e facilitar uma aparência de ineficiência. São mais próprias roupas fartas, dentro do seu figurino, evitando cores baratas (preto, marrom, ou coloridos ralos, de pouca tinta), como também estamparia de desenho muito graúdo (grandes retângulos, grandes círculos, grandes folhas, etc.). Salvo quando a natureza do trabalho recomendar o contrário, é mais conservador e clássico o uso de saias, em vez de calças compridas. Melhor seguir a moda depois que esta estiver bem assente, ou bem aceita. Os caprichos da última moda sempre parecem, inicialmente, extravagância e mau gosto; por isso não é uma boa ideia para a mulher, ser muito vanguardeira em seus trajes de trabalho.
As meias compridas são um acessório importante para a elegância, desde que não sejam espessas e chamem atenção como se fossem meias ortopédicas. Quanto a jóias e bijuterias, no trabalho é conveniente usar o mínimo em tamanho e quantidade. Brincos discretos e pequenos, cintos não muito largos, principalmente se forem de couro cru ou cadeia de metais. Certa vez fui atendido em uma livraria nos Estados Unidos pela própria dona da loja. Usava em uma das mãos um anel com uma grande pedra, e na outra um chuveiro com cinco brilhantes de meio quilate cada um. Elogiei a beleza da ametista, mas ela respondeu secamente: é um rubi. Abstive-me de comentários sobre os brilhantes, mas pensei no quanto ela parecia ter vindo de uma grande noitada diretamente para sua livraria.
Os sapatos nunca são de plataforma alta, ou de salto muito alto; melhor que sejam delicados e de salto médio, e estejam sempre limpos, assim como a bolsa. Se a mulher tem que caminhar muito entre o local onde estaciona seu carro ou desembarca do transporte coletivo, e o local do trabalho, não precisa estragar pelas calçadas os sapatos de sua toilete. Pode utilizar um calçado robusto, adequado para a caminhada, que não prejudique muito a sua elegância, e levar em uma pequena sacola aquele que usará no trabalho. Porém, usar para esse trajeto um tenis e meias brancas e curtas – como vi em Nova Yorque –, é um contraste muito desagradável de se ver.
Roupa, sapatos e bolsa de cor branca devem ser evitados nos meses frios ou nos dias chuvosos.
Para o homem valem recomendações bem parecidas. O uso de paletó e gravata é praticamente obrigatório como paramento da autoridade, tanto pública como privada. O modo de vestir-se de uma autoridade é sempre conservador. Os ternos são em cores escuras, listados ou não, a camisa branca, raramente azul claro, com punhos simples ou duplos, sapatos clássicos, de laço ou de fivelas, meias escuras e gravatas conservadoras. Tanto no governo quanto em empresas privadas os funcionários do alto escalão de chefia, podem usar blazer, mantendo a gravata. Em qualquer dos casos, a camisa a ser usada com o paletó é sempre de mangas compridas. O punho deve ultrapassar a ponta da manga do paletó cerca de 1 a 1,5 cm, ficando cobertas as abotoaduras ou o botão do punho da camisa. Esta, ao nível das assessorias, pode variar a cor, mantendo-se o bom gosto da combinação; os sapatos podem ser mocassins com borlas.
Fora do escalão das autoridades, públicas ou privadas, e das suas assessorias, os homens comumente usam, no máximo, paletó esporte de cor e padrão discretos, com gravata. As camisas coloridas, com colarinho e punhos brancos, são um tanto pretensiosas e por isso o seu uso resvala para os limites do mau gosto.
Jalecos usados em consultórios, hospitais, laboratórios e oficinas não interferem na vestimenta, exceto por dispensarem o paletó ou o blazer. Os homens usam o jaleco sobre a camisa com gravata, as mulheres usam diretamente sobre o vestido ou a blusa. Ao sair do ambiente de trabalho, o jaleco ou o guarda-pó deve ser despido, porque não é parte do traje social e sua função é restrita ao local da atividade.
Os suspensórios são pouco usados atualmente, e as calças vêm com alças para os cintos. Se o homem prefere manter as calças em posição com o uso de suspensórios, deve usar um cinto folgado para ocupar as alças, ou então mandar removê-las, ou encomendar calças a um alfaiate, sem esse detalhe
Os jeans nunca deixam de trair suas origens; ficam melhor para o trabalho no campo, no quintal, ou no jardim e nas oficinas. Sequer para o trabalho em um atelier de arte, um estúdio de fotografia, balcão de loja, ficam lá muito bem.
Não se usam meias claras ou brancas com sapatos escuros. As meias nunca devem ser de cano curto, pois deixam parte das pernas à vista quando o homem se senta. Sapatos engraxados – não se deve dar chance a que alguém de saber de onde o outro vem, pelo barro nos seus sapatos – roupas limpas e passadas, sem manchas, rasgos ou falta de botões, é um mandamento básico."

Rubem Queiroz Cobra em http://www.cobra.pages.nom.br/autoeduc.html
Lançada em 00/00/2001

Achei um mimo este texto (lembra-me a minha mãe a fazer de mim uma senhorinha) e achei por bem partilhá-lo e deixar ao vosso bom senso e sensibilidade a sua interpretação e crítica.

My Man

Monday, July 03, 2006 | 2 Comments


"I, with a deeper instinct, choose a man who compels my strength, who makes enormous demands on me, who does not doubt my courage or my toughness, who does not believe me naïve or innocent, who has the courage to treat me like a woman." Anaïs Nin
US (French-born) author & diarist (1903 - 1977)

Quanto mais...

Monday, July 03, 2006 | 0 Comments

"Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidades eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora."

Álvaro de Campos
a) Ambições profissionais: ser chefe e atingir depressa a reforma;
b) Desejar que todo e qualquer feriado calhe a uma terça ou quinta feira para fazer ponte, ou pelo menos à sexta que é dia santo;
c) Achar que todos os trabalhadores deviam ser funcionários públicos, para “verem como elas mordem”;
d)"A antiguidade é um posto";
e) Rejeitar qualquer inovação no serviço: mudar de agrafes para clips “baralha logo o esquema todo”;
f) Deixar para amanhã o que pode ser feito hoje, se não der muito nas vistas, deixar para o mês que vem;
g) Dizer mal do governo, porque eles são todos “uns chulos que se andam a encher à custa do nosso trabalho”;
h) Combater a frustração de trabalhar pensando que há quem viva pior;
i) Sonhar que um dia ganhará o euromilhões e poderá finalmente trocar os 15 de time-sharing por um mesito no sul de Espanha ;
j) Tratar tudo o que é hierarquia superior por Drº ou Engº com esperança de ser tratado da mesma forma;
k) Considerar-se em todos os momentos um agente da moral e da ordem;
l) Manter sempre a clientela: um indivíduo vai, por exemplo, a uma repartição das finanças e sai de lá depois de ter visitado cada guichet pelo menos duas vezes - se voltou é porque estava satisfeito!;
m) Manter o suspense:“a assinatura que o formulário precisa vai demorar pelo menos 15 dias”, porque é assinado pelo chefe de secção (secretária ao lado);
n) Cantarolar a música do Avante quando o rádio do local de trabalho não funcionar.
o) Lamentar que a assinatura do papel que já passou por três repartições esteja pouco legível e portanto seja preciso tirar um novo documento;
p) Ter o autocolante de “Por favor não fume” na secretária ao lado de um cinzeiro a apoiar um cigarro aceso;
q) Fechar a porta meia hora antes para “arrumar assuntos” e poder sair a horas, mesmo com uma velhota de cajado a acabar de subir o último dos cinco degraus que lhe levaram vinte minutos de esforço;
r) Rejeitar a clientela toda afirmando que “o sistema tem estado todo em baixo”, quando é só o Solitaire que dá erro;
s) Vestir sempre cores pastel para ter um ar cansado de quem se mata a trabalhar;
t) Perguntar sempre “Está à espera de alguém?” quando chega ao balcão e está lá um indivíduo à espera;
u) Começar o discurso por “Olhe, meu/minha amiga/o” sempre que vai dizer que não pode resolver o problema apresentado;
v) Fazer greve porque quer ganhar mais e trabalhar menos, não obstante a produtividade estar perto de zero;
w) Aproveitar sempre que o “cliente” se apresente com melhor aspecto para dizer que “isto pelo processo normal demora «um bocadinho» mas se calhar eu posso fazer-lhe um jeitinho e apressar as coisas”, olhando descaradamente para o bolso da pessoa;
x) Insistir que “o formulário EQ3-B/125 versão 16 é no guichet ao lado” quando atrás tem um cartaz de dois metros quadrados alertando: “Formulário EQ3-B/125 versão 16 – Peça aqui”;
y) Disfrutar de uma pausa para café de 2/3 do dia de trabalho;
z) Não trabalhar eficientemente porque é mal pago e seria um ultraje à sua honra fazer alguma coisa bem com tão baixa remuneração. Além disso não ia trair os camaradas de trabalho e “armar-se em espertinho” mostrando resultados ao chefe.

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Mei and Arawn