Os miseráveis

Tuesday, July 18, 2006 | 2 Comments

Tenho uma vaga ideia de há três décadas se falar da Índia como uma espécie de Biafra. Entretanto, a economia melhorou; há indianos a viver melhor que portugueses ou suecos. Outros, pior. As pessoas dizem, agora, que há duas Índias, uma capitalista, muito burguesa, e outra pobre, miserável. Atribuem culpas ao sistema de castas. Os miseráveis continuam na extremidade inferior, fazendo os trabalhos sujos, que ninguém mais pode fazer: remover os excrementos que os outros produzem, executar todas as tarefas indignas e depreciativas. Vivem mal, comem mal, dormem na rua, não têm direitos civis, nem educação, nada, de tudo se vêm privados.
Por aqui não temos castas, mas temos os mesmos reféns do ciclo de miséria material ou espiritual, ou ambas, em que nascem e vivem. Alguns tentam, outros nem se dão ao trabalho. Reconhecemo-los pela forma como falam, como andam, como se vestem, penteiam. A partir do momento em que saímos de casa cruzamo-nos com essa casta. Alguns trabalham - Não é com orgulho, que bem preferiam fica a escarrar ódio ao governo e aos outros, os que nasceram com sorte - Trabalham nos cemitérios a enterrar e desenterrar corpos, na limpeza das ruas e das lojas, nas escolas, na recolha do lixo, nos hospitais, nos canis do estado e nos matadouros, nos campos, nas fábricas. Creio que estejam todos mortos. Creio que trabalhem como robots, que sejam robots fora do trabalho. A vida parece ser-lhes muito pesada. Roçam-se pelas esquinas das tabernas, e gastam tinta a tinta às cadeiras, anoitecem nos bancos de jardim, compram actrizitas baratas que lhes massagem o ego e o sexo caído, batem nas mulheres e nos filhos, adormecem em vergas de silêncio em tugúrios.
Para um miserável nacional, qualquer outro que venha do estrangeiro para trabalhar e ganhar dinheiro no que ele recusa fazer, é mais miserável do que ele. Os miseráveis verdadeiros não gostam dos que consideram miseráveis. Nem de ninguém. Consideram-se uma casta de sangue nobre, iluminada pelo conhecimento divino da miséria e do martírio, da bebedeira e da grosseria. Chateia-os que alguém faça o trabalho sujo e tão mal pago a que poderiam aceder. Porque os têm direitos. O primeiro deles é não ser miseráveis. Mas não é que façam por ser outra coisa qualquer. O seu sonho era que lhes saísse o Euromilhões para não trabalharem. Aí é que era! É que este país ia para a frente! (não se sabe é onde é que isso seria) Ouço-os a dizer isto sentados no snack-taberna, bebendo cervejas e ruminando toresmos, de fato-de-treino, enchotando à lambada os putos ranhosos como se fossem moscas, à terça à tarde... e à segunda, à quarta, à quinta, à sexta e ao sábado. É a sua única ocupação conhecida. O café. A amarguinha. A mine. O penalty. Ao domigo veste o melhor fato puído e arrasta a sua espectoração crónica à missa, para remissão dos pecados e um almoceco à borla servido no fim. Já tentaram quase todos abandonar a vocação de crentes, mas não encontraram em mais lado nenhum os periados e a caridadezinha que lhes dá tanto jeito. Os miseráveis mais batidos nas repartições e mini formação em segurança social vivem do rendimento mínimo, dos abonos dos filhos e do cão pulguento e ainda conseguem sanguesugar alguma instituição de caridade.
Não sei se existe grande paralelo entre os miseráveis da Índia e os miseráveis ocidentais. Na Índia sei que se envergonham um bocado, e procuram trabalho para conseguir comer aqui o peixe fritismo exala nos bairros de lata com carros tunnados parados à porta.
Um miserável tem o seu orgulho e é verdade que pode ter um casita mal apanhada da câmara e comer postas de ranço ao jantar, mas tem de ter o seu cordão de ouro, o carrinho para másculas rotações e a renda para os cigarros lhe cairem do beiço de boi manso.

Caixinha de música ;)

Tuesday, July 18, 2006 | 2 Comments

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Alone

Tuesday, July 18, 2006 | 2 Comments

From childhood's hour I have not been;
as others were; I have not seen
As others saw; I could not bring
My passions from a common spring.

From the same source I have not taken
My sorrow;I could not awaken
My heart to joy at the same tone;
And all I loved, I loved alone.




Then- in my childhood, in the dawn
Of a most stormy life- was drawn
From every depth of good and ill
The mystery which binds me still:
From the torrent, or the fountain,
From the red cliff of the mountain,
From the sun that round me rolled
In its autumn tint of gold,
From the lightning in the sky
As it passed me flying by,
From the thunder and the storm,
And the cloud that took the form
(When the rest of Heaven was blue)
Of a demon in my view.

Sobre o amor..

Monday, July 17, 2006 | 3 Comments


Inevitável como a ferida feita pela chuva num coração de pedra, o amor chega um dia à nossa vida e nós não estamos.

Please don't hurt me!

Sunday, July 16, 2006 | 2 Comments

Please don't hurt me...
don't let me in the dark
I feel so scared,
can you feel my heart?

Please don't hurt me...
I am so shy
Can you feel my pain?
I 've been raped for a older guy.
How can I survive that again?

Please don't hurt me...
don't spank me
don't make me cry
don't cut my skin
I'm afraid to die.

You look so tender,
how can you kiss make me freeze?
It's hard to remember
that i like to tease.

How can I love?
How can I tell?
That your deepest desire
the taste of cold wire
It's my demoniac hell.

Bondage

Sunday, July 16, 2006 | 2 Comments


Contorço-me,
luto
tento fugir
as cordas são apertadas
são o teu amor
são o meu medo
que me amarram
ao tecto
e a ti
São elas que me impedem de cair no precipício.
Elas são já o precipício.

Sunday, July 16, 2006 | 2 Comments


Passei por uma montra que dizia "liquidação de existências". Não entrei.
A menina amarela era uma menina como as outras, talvez um pouco mais tímida, talvez um pouco mais calada. Os adultos estranhavam aquela seriedade precoce, o fazer das coisas aperfeiçoado à exaustão, os passos medidos, as palavras cuidadas. Quanto passeava pela mão da avó, as senhoras olhavam aquelas duas figuras muito cuidadas, muitos altivas no caminhar aprumado e sorridente. A menina amarela gostava de estar com a avó, de a ouvir falar, de adormecer agarrada ao seu corpo quente, de a ver tecer todas as manhãs a trança no alto da cabeça negra, de cheirar o café quente, as torradas, as fatias douradas, a espuma do leite. Foi nessa altura que a menina amarela começou a adorar o pequeno almoço e a fazedura lenta das coisas que se fazem por amor, em sua casa nunca havia tempo, talvez por não haver amor e o pequeno almoço era apenas uns naufragos flocos de cereais numa tigela esquelética.
A menina amarela não gostava de ir para casa e chorava muitas lágrimas cor de girassol quando tinha de voltar. A sua casa era frigorifica com paredes dentro. Os sorrisos e os sonhos ficavam no tapete da entrada ao limpar dos pés.
Sentia-se desfazer como se fosse feita de areia fininha, em todos aqueles finais de dia. O pai da menina amarela não era muito alto, tinha um olhar parado como o dos cavalos doentes, que por vezes se acendia em momentos de fúria e ódio incendiados por um hálito a drogas e alcool. Nessa altura ela encolhia-se muito como se quisesse transforma-se numa casquinha de noz e tentava passar despercebida debaixo de uma cadeira ou armário. Era sempre encontrada, sabia que era uma questão de tempo. Nessa altura olhava sempre pela janela fora com o olhar agarrado ao ponto mais longínquo do horizonte enquanto o corpo fendia e o sabor a sangue se dissolvia na boca. Às vezes os vidros da janela partiam-se ou os do loiceiro e ela fintava-os como se lhe segredassem baixinho uma resposta.
Não havia palavras entre ninguém, apenas um mastigar rancoroso das frustações. A menina amarela fingia-se sempre muito triste para não ser castigada, mas esse era já o seu maior castigo porque aquela tristeza entranhava-se como uma nódoa difícil de tirar.
Lembrava-se pouco da sua mãe transparente, cara pálida como os espectros. Lembrava-se dela correr de trabalho em trabalho como o coelho da Alice no País das Maravilhas, dos gritos altos, dos gestos a bisturi. Lembrava-se dela a arranjar comida de cão para o jantar, a desfazer as vísceras, o cheiro gorduroso da fervura, a nausea, o prato cheio, a ânsia de sair dali, o vómito, o olhar colérico na outra ponta da mesa, o choro, a colher a levar à boca o vómito e o soluço, o desespero de engolir até as próprias entranhas.

Ad vitam

Saturday, July 15, 2006 | 2 Comments

Amo devagar os amigos que são imensos como as ondas
Os amigos que enlouquecem e estão sentados,
os que caminham e se aventuram,
fechando os olhos,
nos cincos dedos do meu gesto.
Com os livros atrás a arder na eternidade,
no vagar do tempo,
Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De amor.

Muitas janelas abertas e Saramago parece gostar de janelas. Já alguém o disse, bem sei.
Falo das Intermitências da Morte.
E se a morte deixasse de matar?
Eis o mote para a reflexão ampla sobre a vida, a morte, o amor e o sentido, ou a falta dele, da nossa existência.

E se...
Se a morte um dia amasse? Porque é que amar tudo suspende à sua volta?
Porque é que amar parece fazer mudar a nossa alma de casa?

Fica o mote para uma leitura única e intimista. Pois se há algo em que parece estarmos irremediavelmente sós é nesse momento derradeiro.

Livros de Encantar

Friday, July 14, 2006 | 3 Comments

Ontem recordei como via o mundo quando era mais pequena.
O meu pai era enorme. O meu avô também. Pareciam os grandes entes que carregam os pequenos Hobbits pela Terra Média. Assim me sentia em cima dos seus ramos quando passeavam comigo aos ombros para que visse melhor lá de cima.
Á noite, à lareira, gostava de me contar histórias que inventava.
O meu avô contava-me de como o mundo tinha começado e de como noutros tempos devíamos ter sido algo parecido com peixes pois continuamos a nascer de dentro de água. Alguma coisa estaria relacionada. Descobri mais tarde que um filósofo pré-socrático tinha exactamente a mesma teoria. Fiquei maravilhada. As coisas que o meu avô sabia.
Mais tarde descobri que as suas teorias acerca da origem dos planetas e da vida também tinham tido desenvolvimentos geniais por pessoas instruídas. Sim, porque o meu avô só saía da sua quinta na Serra da Estrela tantas vezes quantas tinha de ir ao mercado vender frutas, legumes, azeite, queijos e pães e outras tantas iguarias que cultivava ou quando era obrigado a ir à Covilhã tratar de alguma burocracia.
Mal escrevia o seu nome e nunca leu nenhum livro. Também não tinha televisão e tão pouco água canalizada ou electricidade. Mas isso não o impediu de observar o mundo à sua volta com olhos de ver e usar a sua encantadora arte de contador de histórias para pensar alto.
Ontem desfolhei essa página do livro que guardo dentro, cheio de tesouros e lembranças doces.
Olhava o céu e lembrava-me das mãos fortes e sujas a cheirar a amoras que me seguravam com a suavidade de dois longos ramos, acima da sua cabeça. Lembro-me dos meus dedos sobre a sua cabeça cheia de madeixas branquinhas que pareciam penas de pássaros e de falar e rir muito, muito alto.
Ontem abri essa página num rasgar de luz e azul.
Recordei-o em silêncio, num silêncio cheio, a transbordar de cheiros silvestres e risos cristalinos.
Passou-me por instantes a dor aguda de ansiedade que toda a tarde me perseguiu.
Há coisas que nos curam.
As boas recordações são uma delas.

Um pouco mais...

Friday, July 14, 2006 | 3 Comments





















Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada
-Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
Álvado de Campos

O amor é outra coisa...

Thursday, July 13, 2006 | 3 Comments

O amor não é algo que te faz sair do chão
e te transporta para lugares que nunca viste.
O nome disso é avião.
O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa que escondes dentro de ti e guardas na intimidade.
Isso chama-se vibrador tailandês de alta qualidade.
O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa que te faz perder a fala e a respiração.
O nome disso é bronquite asmática e ataca o pulmão.
O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa que chega de repente e te transforma em refém.
Isso chama-se talibã, entre Israel e Belém.
O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa que voa alto no céu e deixa a sua marca por onde passa.
Isso chama-se pombo com desinteria e se te apanha é uma desgraça.
O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa que tu podes prender ou abandonar quando bem entenderes.
Isso chama-se cão, e se o fizeres não tem perdão.
O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa que te iluminou,
pôs-te ver estrelas e deixou em ti a sua marca, fez-te feliz.
Isso chama-se cirurgião e o que deixa é cicatriz.
O amor é outra coisa.

O amor não é coisa que se perca,
ou que se faça questão.
O nome disso é prolocolo ou declaração.
O amor é outra coisa.

O amor não é uma coisa que desapareceu e que,
quando encontras, muda todo o teu campo de visão.
Isso chama-se controlo remoto de televisão.
O amor é outra coisa.

O amor é simplesmente...

Amigo!

Wednesday, July 12, 2006 | 0 Comments

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo!
"Amigo" é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

"Amigo" (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
"Amigo" é o contrário de inimigo!
"Amigo" é o erro corrigido
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada!

"Amigo" é a solidão derrotada!
"Amigo" é uma grande tarefa,
É um trabalho sem fim,
Um espaço sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
"Amigo" vai ser, é já uma grande festa!"
Alexandre O'Neill

Wednesday, July 12, 2006 | 0 Comments

Hoje, há balões que se enchem. São a promessa da continuidade. Para já são a raiz da nossa força e determinação no cravar de um sulco até ao entusiasmante local onde queremos chegar, para partir novamente. Para já enchem apenas o peito para ir fazer futuro, para ir ganhar o vento e a vida, até ao que queremos ser, até ao que havemos de ser, até à origem do amor.

O mundo ao lado...

Tuesday, July 11, 2006 | 0 Comments

Poderá isto ser amor?

Para quem alguma vez desfolhou, nem que por obrigação curricular, o Cap. VII da República de Platão e se defrontou com a alegoria da caverna, poderá este post fazer algum sentido, sobretudo pelo que antes parecia espreitar envergonhadamente por cima de cada página voltada e que agora aparece, inquietantemente, a saltar-me aos olhos para onde quer que me vire.

A “alegoria da caverna” exprime uma radical prisão de perspectiva, que à primeira vista parece totalmente estranha à nossa situação. Essa prisão distingue-se pelo carácter extremo da finitude que possibilita e ao mesmo tempo também pelo modo como faz que essa perspectiva tão radicalmente finita pareça dispor de um amplo “conhecimento” da realidade. De facto temos constantemente a crença de domínio sobre a realidade que nos rodeia. Desde a nossa casa, as nossas coisas, as pessoas que conhecemos, os sítos que frequentamos. A nossa perspectiva natural é de domínio, de segurança, de conhecimento. Daí que emitamos juízos a torto e a direito sobre os outros, sobre o que achamos das suas acções, sobre sítios e outras tantas realidades de que apenas conhecemos minúsculas partículas do que poderão ser. "Conheço fulano." "Conheço Paris." "Conheço a minha rua."
Se fizermos esse exercício de familiariedade constatamos exactamente a amplitude que julgamos conhecer bem e que nos permite a manutenção do nosso dia-a-dia.
E qual a relação com a Alegoria da Caverna? Não vivemos nós cientes da realidade, dominadores da mesma, confortáveis e seguros perante os nossos juízos acerca de tudo o que nos rodeia? Assim é. Assim parece.

A alegoria da caverna exprime uma inquietante situação. Passo a transcrevê-la:

"Depois disto – prossegui eu – imagina a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta, de acordo com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no género dos tapumes que os homens dos fantoches colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles.
– Estou a ver – disse ele.
– Visiona também ao longo deste muro, homens que transportam toda a espécie de objectos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados.
– Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas – observou ele.
– Semelhantes a nós – continuei -. Em primeiro lugar, pensas que, nestas condições, eles tenham visto, de si mesmo e dos outros, algo mais que as sombras projectadas pelo fogo na parede oposta da caverna?
– Como não – respondeu ele –, se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida?
– E os objectos transportados? Não se passa o mesmo com eles ?
– Sem dúvida.
– Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles julgariam estar a nomear objectos reais, quando designavam o que viam?
– É forçoso.
– E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa, senão que era a voz da sombra que passava?
– Por Zeus, que sim!
– De qualquer modo – afirmei – pessoas nessas condições não pensavam que a realidade fosse senão a sombra dos objectos.
– É absolutamente forçoso – disse ele.
– Considera pois – continuei – o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objectos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objectos mais reais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objectos que passavam, o forçassem com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporia que os objectos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe mostravam?
– Muito mais – afirmou.
– Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar refúgio junto dos objectos para os quais podia olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam?
– Seria assim – disse ele.
– E se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não o deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do Sol, não seria natural que ele se doesse e agastasse, por ser assim arrastado, e, depois de chegar à luz, com os olhos deslumbrados, nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros objectos?
– Não poderia, de facto, pelo menos de repente.
– Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior. Em primeiro lugar, olharia mais facilmente para as sombras, depois disso, para as imagens dos homens e dos outros objectos, reflectidas na água, e, por último, para os próprios objectos. A partir de então, seria capaz de contemplar o que há no céu, e o próprio céu, durante a noite, olhando para a luz das estrelas e da Lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e o seu brilho de dia.
– Pois não!
– Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a sua imagem na água ou em qualquer sítio, mas a ele mesmo, no seu lugar.
– Necessariamente.
– Depois já compreenderia, acerca do Sol, que é ele que causa as estações e os anos e que tudo dirige no mundo visível, e que é o responsável por tudo aquilo de que eles viam um arremedo.
– É evidente que depois chegaria a essas conclusões.
– E então? Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação, e do saber que lá possuía, dos seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que ele se regozijaria com a mudança e deploraria os outros?
– Com certeza.
– E as honras e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prémios para o que distinguisse com mais agudeza os objectos que passavam e se lembrasse melhor quais os que costumavam passar em primeiro lugar e quais em último, ou os que seguiam juntos, e àquele que dentre eles fosse mais hábil em predizer o que ia acontecer – parece-te que ele teria saudades ou inveja das honrarias e poder que havia entre eles, ou que experimentaria os mesmos sentimentos que em Homero, e seria seu intenso desejo "servir junto de um homem pobre, como servo da gleba", e antes sofrer tudo do que regressar àquelas ilusões e viver daquele modo?
– Suponho que seria assim – respondeu – que ele sofreria tudo, de preferência a viver daquela maneira.
– Imagina ainda o seguinte – prossegui eu -. Se um homem nessas condições descesse de novo para o seu antigo posto, não teria os olhos cheios de trevas, ao regressar subitamente da luz do Sol?
– Com certeza.
– E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar a vista – e o tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso, e não diriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista, e que não valia a pena tentar a ascensão ? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam ?
– Matariam, sem dúvida – confirmou ele."
República, Livro VII, 514a-517c

O anticristo!

Monday, July 10, 2006 | 0 Comments

Ele entra em todas as casas de família, conquista as criancinhas com as suas mensagens subliminares nas suas cançõezitas de refrão fácil e música tirolesa gay. O jantar fica a meio, o pijama por vestir e a novela tem de ser dramaticamente interrompida (o que vale é que a seguir de uma há sempre outra).
Tem uma carita sorridente e aparentemente inofensiva, não fuma, não bebe, e é um cidadão exemplar com um carrito para contribuir alguma coisita para o IA e para as petrolíferas. Resolve tudo com simpatia irritante sem ajuda de psicólogo nem narcóticos anti-depressivos. Usa calções o ano inteiro sem o mínimo de sentido estético e mesma blusa todos os dias o que em termos de higiene é inominável e um gorro com um guizo à cabrito monteza.
É este, meus amigos, que deixa as criancinhas histéricas a chorar baba e ranho nas prateleiras do continente enquanto os pais se tentam servir do carrinho das compras para discretamente as deixar inconscientes. É este que é capaz de convencer os vossos filhos a arrumar o quarto num episódio depois de a mãe se ter esmifrado a ler livros de psicologia infantil sobre técnicas de negociação sem impacto negativo na constituição da personalidade, a comer a sopa apenas com uma frase e uma gargalhada depois dos três pares de estalos educativos e um chão cheio de cuspidelas.
Não há exorcista veterano capaz de erradicar qualquer espírito de joanete inchado que tenha resposta a esta força maligna. Ele veio para ficar, acautelem-se e protejam os vossos anjinhos inocentes, ou melhor protejam-se deles!

Foreigner

Sunday, July 09, 2006 | 0 Comments

Deixei que os teus olhos me rasgassem e a tua boca me roubasse o último fôlego. Que as asas se quebrassem e o voo fosse rasto de destruição.
Ouço o incêndio, a música alta e atordoante como o torpor fabril metálico das pulsações aceleradas. O suor interrupto da voluptia inebriante. Ouço quem se ama onde o amor não há – apenas o clandestino abrir do portão dourado ante uma porta cerrada. Ouço o rasgar dos mapas, o corte do dedo apontado como lança de bronze na mão de vastidões adversas. O entulho os restos de existência, desdobrada a raiz, a heresia, a sábia recriação do filhos arrancados ao útero do rancor e da linfa. O arrastar dos pés como arados. A luz difusa. Os barcos segregados na vastidão do mar. Ainda a medo desagrego essa centenária paz dos homens, onde os ouço, e por onde quer que passe sou apenas essa sombra sem corpo como se as minhas origens fossem compradas do terror de não existir em ninguém, de ser um estranho em todas as terras, até na minha casa, até nos teus braços. Quando niinguém nos reconhece o rosto ou o nome, é como se nao existissemos em lugar nenhum...

Hora

Friday, July 07, 2006 | 1 Comments

Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta - por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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