Fragilidade

Friday, September 15, 2006 | 1 Comments

Volatilidade

Friday, September 15, 2006 | 0 Comments

Palavreando

Friday, September 15, 2006 | 1 Comments

Hoje apetece-me "a-palavrar-vos".
"Arco-íris" é linda, leve, luminosa e tem um som maravilhoso. "Erva cidreira", "adágio", "amígdalas", "serenata" e "morango" também são bonitas. Os astros em geral têm uns bons nomes: "Terra", "Júpiter", "Vénus", "Urano"... e "Sol" e "Lua" que, com os seus nomes curtos e definitivos, formam um casal especial. Carregam esse simbolismo de masculino-feminino e não só resistem ao tempo, como são usados para medir a passagem dele. As cores também foram bem baptizadas. "Azul", "lilás", "preto", "branco", "verde". Até "vermelho" que é uma palavra forte e agressiva, combina com a cor que representa. Só tenho dúvidas em relação ao "amarelo". Sempre achei que merecia um nome melhor. Certas palavras não é que sejam bonitas, mas são simpáticas. É o caso de "pipoca", "camelo", "bolota", "caneca", "galocha" e "chupeta". Algumas são quase boas, mas parece que têm um "r" no lugar errado: "crocodilo", "lagartixa". Outras têm um "r" a mais: "próprio" e "frustrado".
Há palavras pequenas muito bem construídas como "bola", "tatu", "aço", "raio", "coco", "uva". Há outras que são compridas, mas bem equilibradas: "paralelepípedo", "sonoplastia", "velocidade", "dicionário", "caleidoscópio", "literatura", "pirilampo". E há as de tamanho médio que formam a base de nossa agradável língua: "selvagem", "primavera", "órbita", "hortelã", "liberdade", "perímetro", "lágrima", "destino", "pigmento".
O corpo humano tem palavras lindas para compensar outras que não quero nem citar. "Boca", "pernas", "dedos", "olhos", "cabelos", "lábios". São todos lindos, especialmente os do corpo feminino. Alguns verbos são bonitos e fáceis de praticar: "saborear", "espreguiçar", "cantar", "seduzir", "envolver", "esquecer". Já o verbo "amar" é simples e directo, mas tão difícil de ser dito e realizado.
Depois há aquelas palavras interessantes que são desperdiçadas em papéis menores: "meretriz", "coliformes", "migalhas". Outras são confusas como "guarda-chuva". "Guarda-roupa" faz sentido, mas "guarda-chuva"? Em espanhol diz-se "paraguas", que é mais lógico. "Céu" e "paraíso" são óptimos. Já "purgatório" é muito pior do que "inferno", pelo menos no nome. Um hábito que não entendo é agradecermos dizendo "obrigado". A palavra é bonita, mas a ideia é muito má. Outra que até hoje ninguém me explicou é porque se escreve "muito" e se lê "muinto". As notas musicais são perfeitas: "dó, ré, mi, fá, sol, lá, si", mas se precisar de usar um "sustenido" ou uma "semi-fusa", a coisa desafina. "Delírio", "sonhos", "algodão", "oceano" são belas palavras fugidias. Já "fugidia" é uma palavra horrorosa. Uma detalhe fascinante na linguagem em geral são as palavras polissémicas. São vocábulos de dupla personalidade, que acumulam funções completamente diferentes. "Banco" pode servir para guardar dinheiro ou para sentar. "Manga" de camisa ou fruta. "Andar": verbo ou piso de prédio. "Piso" por sua vez pode ser também do verbo pisar. "São" do verbo ser ou de santo. E mais: "nó", "salto", "canto", etc. Lewis Carrol brinca com maestria esse jogo de significados em Alice no País das Maravilhas.
A criação de novas palavras realiza a evolução de uma língua. Eu, por exemplo, estou há dias a cantarolar uma palavrinha simpática que o Nuno Markl inventou, "catitividade" e até já disse à minha colega bloguista Kátia que vou passar a chamar-lhe "Catita" pela tão elevada taxa de "catitividade" que ela tem. As gírias também são renovadoras. Uma palavra que hoje tá na rua, na boca do povo, amanhã pode estar num romance ou até num discurso de posse de uma alta patente do estado. Ah pois é. E esta hem?

(Respiração) Suspensa

Thursday, September 14, 2006 | 0 Comments

Ontem, com a intenção de beber uns copos com amigos, fomos até ao Casino. No mesmo instante em que nos acomodávamos nas cadeiras, fomos surpreendidos por um magnífico espectáculo, ali mesmo à nossa frente, no meio do bar circulante (sim, circula de facto, qual carrossel mágico, movendo-se suavemente para nos levar a ver a sala de várias perspectivas e aos espectáculos que decorrem, isto tudo com uma chávena de chá verde entre os dedos e a conversa morna e agradável de amigos). Do tecto pendiam duas faixas brancas que Andrea usava como asas, em movimentos tão suaves quanto poderosos, como uma valquíria alada a sobrevoar os seus domínios. No mundo dela emudecemos, esquecemo-nos de pedir o que queremos beber, esquecemo-nos do que íamos ali fazer. Suspensos, ali ficamos. Como se as suas asas nos tomassem a alma, que, como um decalque, surge nos traços que desenhava no ar, como se os nossos olhos já não tivessem outro suporte senão o seu gesto, assim ficámos, suspensos. Não fosse o nosso sopro quebrar o encanto do seu voo.


"A verdadeira arte do novo circo é a proposta do Casino Lisboa para Setembro. Assim, no dia 1, estrearam-se Andrea Engler, com um número de Aerial Tissue, e Marin Magne, com Aerial Straps. No dia 16, será a vez de Elena apresentar um exercício de Aerial Contortion. Tudo isto no Arena Lounge! Suspensa em duas faixas de seda branca, Andrea Engler executa um ballet aéreo que capta a atenção do público até ao último minuto. Nascida em Berlim, Andrea Engler propõe uma elegante coreografia, com invulgar precisão estética e dramática. A ver até ao dia 15 de Setembro!
Mestre reconhecido da modalidade, Marin Magne já esteve em evidência no Arena Lounge, no passado mês de Abril. As melhores acrobacias de Aerial Straps estarão, agora, em destaque até ao dia 10 de Setembro.
Com o acompanhamento de um professor russo, Marin Magne começou por estudar acrobacia aérea com faixas em Paris, especializando-se em trapézio. Posteriormente, associou a sua experiência ao esforço físico e desenvolveu o espectáculo Straps & Sculture.
A arte acrobática de Elena estará no Arena Lounge, de 16 a 30 de Setembro. Visualmente muito apelativos, os exercícios de Aerial Contortion distinguem-se pela habilidade e elegância da interveniente. " in Portal Lisboa Jovem

Desa_finando-se...

Wednesday, September 13, 2006 | 0 Comments

Se você disser que eu desafino amor,
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
Só privilegiados tem ouvido igual ao seu,
Eu possuo apenas o que Deus me deu
Se você insiste em classificar,
Meu comportamento de antimusical
Eu, mesmo mentindo devo argumentar,
Que isto é bossa nova, Que isto é muito natural
O que você nao sabe, nem sequer pressente,
...
Você com a sua música esqueceu o principal,
Que no peito dos desafinados
No fundo do peito bate calado,
Que no peito dos desafinados,
Também bate um coração.
António Carlos Jobim e Newton Ferreira Mendonça
1 - Amigos com letra maiúscula
2 - Sorrisos
3 - Piquenicar
4 - Gelado numa taça larga
5 - Cinema
6 - Sonhos
7- Molengar no Starbucks
8 - Viajar
9 - Caipinhas doxinhas doxinhas
10 - Surpresas
11 - Dançar
12 - Celebrar datas importantes (mesmo que sejam inventadas)
13 -Estar apaixonada
14 - Livros (muitos e bons! de poesia, romance, romance histórico...meus, dos outros, venham eles!)
15 - Lençóis lavados
16 - Cantarolar (baixinho...porque não tenho grande voz)
17 - Cerejas
18 - Fotografar
19 - Canetas, lápis e afins...
20 - Caipirinhas de morango
21 - Música
22 - Desafios
23 - Bloggar-me
24 - Orquídeas brancas
25 - Roupinhas novas
26 - Queijinhos e presuntinhos....tapas...mnham!
27 - Google (onde encontro tudo, excepto aquilo que perco)
28 - As luzes da cidade à noite
29 - Katering
30 - Bombokas de morango
31 - Aprender coisas novas
32 - Pipocar
34 - Beijos na testa
35 - Fazer festinhas
36 - Sushi
37 - Canecas
38 - Chá quentinho entre os dedos frios
39 - Madrid
40 - Apanhar conchas
41 - O cheiro morno das velas
42 - Tostas de atúmmmmmmmm
43 - Gomas que picam na língua
44 - Roubar massa do bolo com o dedo antes de ir ao forno
45 - Escrever
46 - Enviar postais
47 - Bolas de sabão
48 - Banho quentinho ao fim do dia
49 - É segredo....
50 - Saber quais são as tuas :)

Mythologies

Tuesday, September 12, 2006 | 0 Comments

Descobrir o trabalho de Patricia Barber é simplesmente descobrir um reduto onde deliciar os sentidos e deixar escorrer o tempo para fora do sangue. Não é por acaso que é considerada uma das melhores vocalistas de jazz da actualidade, mas o seu condão estende-se à voz e às letras carregadas de ironia, amores e humores ardentes. Mythologies, o seu mais recente trabalho está a ser considerado nos EUA como um contributo marcante na história do jazz, pela fusão inovadora entre a nova música clássica e o jazz, com o timbre particular dos idiomas populares do mundo. Cada canção é um quadro traçado sobre cada personagem das Metamorfoses de Ovídio, um prado extenso onde a música e a filosofia se unem na tecitura de um corpo chamado Arte.

"Imagine if you'd never heard jazz before.... you stumbled in after work for a drink.... you might think that jazz is an Ancient Greek music.”
Patricia Barber

http://musicstore.connect.com/album/612/Patricia-Barber/Mythologies/500000000000020648552.html

Pareço falar de mim...

Monday, September 11, 2006 | 0 Comments

Agora, onde? Agora, quando? Agora, quem? Sem perguntar a mim mesmo. Dizer eu. Sem pensar. E dizer que são perguntas, hipóteses. Ir em frente, dizer que é ir, dizer que é em frente. Será possível que um dia, vá lá, um primeiro passo, eu tenha apenas ficado num lugar de onde, hábito antigo, costumava sair para ir passar dia e noite o mais longe possível de minha casa, e nunca era longe. Pode ter começado assim. Nunca mais farei perguntas a mim mesmo. Julgamos estar apenas a descansar, para depois agirmos melhor, ou sem ideias feitas, mas passado pouco tempo vemo-nos impossibilitados de fazer seja o que for. Pouco importa como isto aconteceu. Isto, dizer isto, sem saber o que foi. Talvez não tenha feito mais do que confirmar um velho facto consumado. Mas não fiz nada. Pareço falar de mim, mas não sou eu, não é de mim.

Samuel Beckett, O Inominável

Save It For A Rainy Day

Monday, September 11, 2006 | 0 Comments

Pretty little hairdo don't do what it used to
Can't disguise the living
All the miles that you've been through
Looking like a train wreck
Wearing too much makeup
The burden that you carry
Is more than one soul could ever bear

Don't look so sad, Marina
There's another part to play
Don't look so sad, Marina
Save it for a rainy day
(...)

You neve make your mind up
Like driving with your eyes shut
Rough around the edges
Won't someone come and take you home
Waiting for a breakthrough
What will you set your mind to?

We stood outside the Chinese restaurant
in the rain
Don't look so sad, Marina
There's another part to play
Don't look so sad, Marina
Save it for a rainy day
...

Save It For A Rainy Day, Jayhawks

apesar...

Friday, September 08, 2006 | 0 Comments

Apesar dos anos me pesarem no contorno dos olhos e me curvarem as costas, há algo inexplicavelmente dócil de uma fé inabalável que não conhece Deus algum, que se mantém impenetrável ao torpor dos dias e ao caldo inodoro do conformismo. Apesar da correnteza dos dias me ter engolido em garfadas grandes os sonhos e do desgaste de fazer em contra mão o destino, apesar das horas me arrancarem a cada instante a pele e o rosto tão igual, ter por dentro ossos que se quebram e se solidificam em ângulos novos. Apesar dos momentos em que me esqueço e me perco no caminho mais simples, e me quedo na cama cansada de arrastar o corpo entre escombros de ilusões e desejos. Apesar dos momentos em que me faltam as palavras e com elas o ar, apesar dos momentos em que se emaranha a vontade e a queda. Apesar das mãos estendidas, abertas que estendo, apesar de fingir para a vida sentidos que a vida não tem, porque a vida é circular como os lagos profundos. Apesar dos azuis e lilases, das investidas e dos esgotamentos, apesar de mim, de ti, do que foi e do que há-de vir…Apesar das palavras deixarem entre si espaços inabitados nunca poderei lá morar. Apesar da mãe e do pai e dos irmãos aqui todos a sorrirmos na moldura envernizada a esmalte caro, não haver família. Apesar do intenso cheiro a éter a latejar na minha cabeça, apesar dos silêncios e das ausências, apesar do amor que nunca veio para ficar e dos corações que nunca ouvirei bater junto ao meu, apesar da vida e da morte, do rosto pálido de força exangue, do violino, do piano, da relva e do chão, apesar do apesar…eu respiro, eu fico, eu acordo e morro, renasço, sem princípio nem fim…

Runaway

Friday, September 08, 2006 | 0 Comments


Call you up in the middle of the night Like a firefly without a light
You were there like a blowtorch burning
I was a key that could use a little turning

So tired that I couldnt even sleep
So many secrets I couldnt keep
I promised myself I wouldnt weep
One more promise I couldnt keep

It seems no one can help me now,
Im in too deep; theres no way out
This time I have really led myself astray

Runaway train, never going back
Wrong way on a one-way track
Seems like I should be getting somewhere
Somehow Im neither here nor there

Can you help me remember how to smile?
Make it somehow all seem worthwhile
How on earth did I get so jaded?
Lifes mystery seems so faded
I can go where no one else can go
I know what no one else knows
Here I am just a-drownin in the rain
With a ticket for a runaway train
And everything seems cut and dried,
Day and night, earth and sky,
Somehow I just dont believe it

Bought a ticket for a runaway train
Like a madman laughing at the rain
A little out of touch, a little insane
Its just easier than dealing with the pain

Runaway train, never coming back
Runaway train, tearing up the track
Runaway train, burning in my veins
I run away but it always seems the same

Summer Sky

Thursday, September 07, 2006 | 0 Comments

The sky is no longer blue,
The night has arrived,
and here I stand just beside you.
The moon above enlightens our face,
we drift forgotten that we belong to the human race.
I’m so tired, I almost fade,
You are so sweet that can bring me to an adolescent grade.
We smile proud and free,
Filled with all the beauty we can see
Under an evening, limpidly bright
Dreaming in amber light
So many treasures that we can’t tell
Small things that cannot be sell
These are pleasures you cannot buy
Here, my love, quiet and tender we lie
under these infinitive summer Sky.

Thursday, September 07, 2006 | 0 Comments


"Pareces tranquila, porque escondes bem as inquietações. Tem cuidado para não te fechares demasiado na tua concha, porque dos outros podes receber o mal, mas também o bem. Por que te substimas sempre? - perguntou-lhe."

Sveva C. Modignani, Baunilha e Chocolate

Good girl

Wednesday, September 06, 2006 | 1 Comments

I’m not your good girl
I’m not anyone
Life has grown so difficult
Just trying not to fall

Sometimes I see you
Peek through your dark disguise
Though I am broken down by your words
I can’t look away from your eyes

You want too much of me
And you give me nothing but lies
When you’re hereI can’t feel
Who I really am
When you’re gone
I want to run
Far away

Push and pull my heartstrings
Each tug takes liberty
You fight to get what suits you
Make the world what you want it to be
Time to step out of your shadow
Let the sun shine down on me

I’m not your good girl
I’m not your anything
I’ve become so cynical
Smaller steps won’t stop my fall

http://www.last.fm/music/Hungry+Lucy/_/Good+Girl

Over and over again

Monday, September 04, 2006 | 0 Comments

(...)
vim falar contigo porque vi-te aqui sozinha
tás em linha? Espero que esteja tudo bem contigo
Será que há espaço para mais um amigo
Não tou aqui para engatar, apenas falar
tar contigo a chillar, podemos conversar,
se não quiseres no stres, é normal
deves ouvir tanto coro quase nenhum original
(...)

Acreditas no destino e que tudo pode mudar num momento?
sabes o que queres ou segues ao sabor do vento?
tens tempo ou tens algum compromisso?
ainda vives com os teus pais ou nem por isso
qué que fazes? estudas? trabalhas?
preferes saltos altos ou calções e sandálias
quando sais á noite vais onde ,onde é que páras?
saía muitas vezes mas agora são raras
acreditas nos signos? qual e pra ti o made zodìaco?
qual é para ti o maior afrodisíaco?
sinto o teu style, o teu look
deixas-me tonto sem me tocar, qual é o truque?

Ainda bem que não fumas eu também não
gostas mais de comédias ou de filmes de acção?
fica com o meu nº gostava de ver outra vez
estar contigo outra vez, o qué que prevês? talvez?
se não for o que foi, tiver que ser tem que ser
sem forçar deixar o vibe acontecer,
é bom saber que temos coisas em comum
espero não ser apenas mais um
é engraçado sinto-me bem ao pé de ti
queres ir dar uma volta e andar por aì?
parece que já nos conhecemos há bué
nem sei porquê a vibe é
qualquer coisa que se sente e não se vê ,
mesmo sem querer, tu seduzes
posso dar-te boleia ou conduzes?
(...) manda-me uma fotografia espero que nao te esqueças deste dia
vou ficar a espera do teu telefonema
liga para irmos ao cinema
e um dia destes quem sabe...

Boss AC

Under the bridge

Monday, September 04, 2006 | 1 Comments

Sometimes I feel like I don't have a partner
Sometimes I feel like my only friend is the city I live in
The city of angels
As lonely as i am
Together we cry (...)

(...) It's hard to believe that there's nobody out there
It's hard to believe that I'm all alone
At least I have her love, the city she loves me Lonely as I am, together we cry
Red Hot Chili Peppers

Um aceno

Sunday, September 03, 2006 | 3 Comments

Quem ao passar o Saldanha não se cruzou já com o gesto estranho e desusado do senhor que nos acena sem uma pergunta sem sequer saber de nós mais que aquele breve trocar de olhares por instantes.
O homem que diz adeus. O senhor do Adeus. O maluco do Saldanha. Já o ouvi ser chamado por vários nomes uns mais simpáticos que outros. Por João Paulo que é o seu nome apenas hoje da boca dele. E para mim agora terá sempre nome porque ele não gosta que lhe chamem senhor.
Com os carros do outro lado e as costas das mãos à nossa frente. É por ele que tocam as buzinas, que se atiram beijos e sorrisos, que se gritam "boas noites!" e "adeus!". Eu não percebia porque acenava, mas acenava sempre numa tentativa de agradecer aquele estar ali a povoar a minha noite, o meu caminho. Agora ao seu lado vejo repetirem-se os acenos como se cada um dos mundos fechados que a cidade encerra e os quais erigimos num anonimato desconfiado concedessem tréguas neste reduto de inocência pueril e despojada esquecida das suas quase oitenta primaveras. A sua roupa clássica e a ondulação do cabelo grisalho alinhado com gel, dão-lhe um ar meio aristocrático, frágil e distinto. A sua história é simples e fala de solidão, se pedirmos delicadamente ele entrega-no-la sem sequer querer saber o porquê talvez porque as solidões se reconheçam ao longe pelo cheiro umas às outras e não precisem de saber mais de si que essa existência entranhada.
Mimado desde bebé, nasceu no seio de uma família muito rica num enorme palacete. Fez o ensino primário todo em casa, com um professor particular, pois no primeiro dia de aulas no Colégio Parisiense chorou tanto, que os pais não tiveram coragem de o mandar de volta. " fui criado numa redoma de vidro", confesssa. Depois do divórcio dos pais, quando tinha 13 anos, foi morar para o Restelo com o pai. Por ele, inscreveu-se em Direito, mas depressa desistiu, "era muito chato". Depois de uma igualmente curta passagem pelo curso de Histórico-Filosóficas, o pai, que não sabia o que fazer com ele, mandou-o para Londres, com o irmão. Há um brilho que se acende ao falar dos amigos e das saídas de rapazes, da cumplicidade e alegria desses tempos… Sem quase pôr os pés nas aulas, regressou a Portugal e, depois da morte do pai, pouco tempo depois, foi morar com a mãe, de quem não se separou até ao último dia da sua vida.
"Viajámos muito os dois. Todos os anos íamos a Paris e Madrid. Conheço a Europa inteira, excepto a Grécia…" E o olhar perde-se num momento só dele, como se pensasse alto deixando-me aqui a segurar o seu fio de pagagaio solto.
Depois da morte da mãe, começou a sentir-se cada vez mais só e começou a deambular pelas ruas, pelos centros comerciais ou por qualquer lado onde o pudesse distrair daquela morte outra que o consumia como uma térmita persistente. Um dia na estrada alguém deixou cair da janela um aceno. Depois veio outro e outro e aos poucos como as luzes da cidade se vão acendendo ao cair da noite assim os acenos se sucederam. Explica sem esconder um certo orgulho o seu "milagre". Nos olhos cinzentos que falam por detrás dos óculos de massanegra, duas lágrimas contidas. Diz-me que sabe que o que faz "não é muito normal" eu respondo-lhe que a normalidade é como os suspensórios, cada um usa à sua medida. É o remédio que lhe permite disfarçar a solidão que o consome e atenuar a dor menos de um passado vivido à medida de outras vidas que não a sua. No baú dos sonhos perdidos jazem o curso que não tirou, o trabalho que nunca fez, os filhos que não teve e o grande amor que nunca conheceu. "Sinto-me só. Incompleto" lacrimeja e eu ali sem me consegui desembaraçar do espanto só me lembrei de agradecer e abraça-lo fugazmente sentindo o corpo magro debaixo da camisa a cheirar a goma, virar costas esquivamente quase tropeçando nos pés e sussurrando um boa noite tímido já sem o sorriso largo da chegada. "Encontramo-nos no céu", grita-me, repetindo o que um diplomata ucraniano lhe disse uma vez. Levanto os olhos da calçada e olho para trás.
Não percebo porque me vim embora, porque fugi. Só sei que estando aqui estou lá por inteiro. Talvez por existirem estranhas formas de amor e ter sido embebida numa delas...ou talvez por me ter apercebido num momento de lucidez que aquela figura a acenar no passeio era eu, somos nós.

A nossa canção

Friday, September 01, 2006 | 1 Comments

Descobri este texto num blog vizinho: http://eveoneven.blogspot.com
Tantos anos passados ainda recordo melodias que me eram cantadas em susurro e que ainda segredam tranquilidade quando as canto para dentro. Por isso cá vai:

"Quando uma mulher sabe que está grávida, numa determinada tribo Africana, vai para a mata com algumas amigas, e juntas rezam e meditam até ouvirem a canção da criança.
Elas sabem que cada alma tem a sua vibração, que expressa o seu propósito e aroma próprios. Quando as mulheres se afinam com a canção, elas cantam-na em voz alta.
Então retornam à tribo e ensinam a canção a todos os outros.

Quando a criança nasce, a comunidade reúne-se e canta a canção para ela. Mais tarde, na idade de ir para a escola, a vila reúne-se de novo, para cantar a canção para a criança.
Quando da iniciação da fase adulta, novamente o povo se reúne e canta a canção. À época do casamento, a pessoa ouve a sua canção. Finalmente quando a alma está pronta para sair deste mundo, a família e os amigos unem-se ao redor da cama da pessoa, como fizeram no seu nascimento, e cantam à pessoa para a próxima vida.
Para esta tribo africana há outra ocasião na qual o povo canta para a criança. Se em algum momento de sua vida, a pessoa comete um crime ou um acto anti-social, o indivíduo é chamado ao centro da vila e as pessoas da comunidade formam um círculo ao redor dele. E então cantam-lhe a sua canção para que a ouça.
A tribo reconhece que o correctivo para o comportamento anti-social não é a punição; é o amor e a lembrança da sua identidade. Quando tu reconheces a tua própria canção, não tens desejo ou necessidade de fazer nada, que possa ferir outro ser.

Um amigo, é alguém que sabe a tua canção e a canta, quando tu a esqueceste.
Aqueles que te amam não se deixam enganar pelos erros que tenhas cometido, ou por imagens obscuras que tenhas de ti mesmo. Eles lembram-te a tua beleza, quando te sentes feio; a tua totalidade, quando estás dividido; a tua inocência quando te sentes culpado; o teu propósito, quando estás confuso.
Podes não ter nascido numa tribo africana, que cante para ti nas transições cruciais da tua vida, mas a vida está sempre a fazer-te lembrar quando estás afinado contigo mesmo, a cantar a tua canção e quando não estás.
Quando te sentes bem, tudo aquilo que fazes pertence à tua canção, e quando te sentes mal, tal não acontece. No fundo, todos nós reconhecemos a nossa própria canção e sabemos cantá-la muito bem. Às vezes, murmuramos apenas, mas acontece o mesmo com todos os grandes cantores.
Continua a cantar, vais encontrar o teu caminho para casa."
by Eveonclouds

“Encontrar a própria canção é encontrar o caminho para casa”
Allen Cohen

Adagio higiénico

Friday, September 01, 2006 | 0 Comments


Ao fazer compras no supermercado, descobri uma preciosidade, o ex libris das listas de compras, a gama de papéis higiénicos Neve. E não pensem que comprar papel higiénico é uma compra fácil ao alcance de qualquer dona de casa honorária. Não meus amigos, este é um produto sofisticado! O papel higiénico Neve diz vir responder às necessidade (?!) das classes A e B. Coisa que nunca tinha equacionada era isto de classe social ia ao ponto de tão grande diferenças... Portanto temos a Classe B que tem à disposição algumas opções, por exemplo o Neve Ultra: «alto relevo de flores, perfume e uma micro-textura» que, segundo o texto da embalagem, proporciona aos seus felizes utilizadores «a suavidade de uma pétala de rosa»!
Perguntar não ofende: alguém alguém experimentou?
Depois, temos o Ultra Soft Color, mais caro é claro! Virado para a Classe A, cor de laranja, com «extracto de pêssego»... as classes nobres têm um rabito habituado a distinguir cores e cheiros - é outro mundo, sem dúvida! Mas, o supra sumo é o Neve Ultra Protection, o top da linha. Este Rolls Royce dos papéis higiénicos, além de conter «óleo de amêndoas» para uma rabinho de bebé garante «maciez superior e um cuidado maior com a pele», na sua delicada fórmula encontramos Vitamina E. É realmente coisa da nobreza isto de ter rabinho vitaminado.
Agora para quem esteja a pensar sair de lista de compras em riste, pense duas vezes, isto de escolher produtos básicos é só para os mais intrépidos e experientes. Anos e anos de evolução para quê meus senhores? Os que pensavam que esta era o século da nanotecnologia desengane-se, este é o século que viu nascer a estratificação das classes sociais pela gama de papel higiénico!
É caso para dizer " E esta, hem?!"

Manhã de Agosto

Friday, September 01, 2006 | 0 Comments

Como magnólia, entregas o perfume
promessa indolente
veludo, lume
doçura quente.

Como orquídea, derramas alegria
exótica beleza,
delicada princesa,
corpo de maresia.

Como açucena, abre-se o teu rosto
tímida paisagem,
serena imagem
na manhã de Agosto.

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Mei and Arawn