A história do porquinho verde

Tuesday, October 17, 2006 | 6 Comments

Era uma vez, numa quinta numa terra estranha e distante, vivia um pequeno porquinho diferente de todos os outros pequenos porquinhos ao seu redor.O pequeno porquinho era diferente de todos os outros porquinhos porque era verde, não, porque era verde fluorescente, mesmo, verde que brilhava na noite.Ora, o pequeno porquinho verde gostava realmente de ser verde. Não que ele não gostasse da cor dos outros porquinhos, não, não era nada disso, ele até achava o cor-de-rosa uma cor bonita, mas, na verdade, ele gostava de ser assim, assim verde, assim um bocadinho diferente e um bocadinho peculiar.Os outros porquinhos ao seu redor é que não gostavam nada do pequeno porquinho verde; tinham inveja da sua cor especial e, por isso, metiam-se com ele, faziam-lhe a vida negra, e as suas queixas e zangas permanentes acabaram por aborrecer os donos da quinta e um dia estes pensaram “Hmmm, o melhor é fazermos qualquer coisa para acabar com isto”.E, se bem o pensaram melhor o fizeram, e então, uma noite, quando os porquinhos estavam todos a dormir nos vastos campos da quinta, os homens agarraram no pequeno porquinho verde e levaram-no para o celeiro, com o pequeno porquinho verde sempre a guinchar e a chorar, e os outros porquinhos a rir-se dele, e quando chegaram ao celeiro os donos da quinta abriram este enorme barril cheio de uma tinta cor-de-rosa muito especial e meteram lá dentro o pequeno porquinho verde até ele ficar coberto da cabeça aos pés com aquela espessa tinta cor-de-rosa, e nem um pedacinho de verde ter sobrado, e depois mantiveram-no pendurado até a tinta acabar de secar.E o que era muito especial a propósito desta tinta cor-de-rosa era que esta tinta não poderia nunca ser lavada ou pintada por cima. Não poderia nunca ser lavada nem poderia nunca ser pintada por cima.E o pequeno porquinho verde pensou “oh, por favor, meu deus, por favor, não me deixes ser como o resto dos porquinhos, eu gosto tanto de ser assim um bocadinho peculiar”.Mas era tarde demais. A tinta tinha secado e os donos da quinta mandaram o pequeno porquinho para junto dos outros porquinhos, e todos os porquinhos cor-de-rosa se riram do pequeno porquinho à medida que ele caminhava, triste, até chegar ao seu pedaço de relva favorito, tentando perceber porque é que deus não tinha escutado as suas preces, mas não conseguia entender e então chorou, chorou até adormecer mas mesmo as dezenas de lágrimas que chorou não podiam lavar aquela horrível tinta cor-de-rosa pois aquela tinta não poderia nunca ser lavada nem poderia nunca ser pintada por cima.Ora, nessa noite, enquanto todos os porquinhos continuavam a dormir nos campos da quinta, veio esta estranha tempestade, com grandes e grossas nuvens, e começou a chover, devagarinho primeiro mas depois com mais força e mais força e mais força.E esta chuva não era uma chuva normal mas uma chuva verde muito especial, quase tão espessa como tinta e, mais do que isso, esta era uma chuva ainda mais especial porque o verde desta chuva não poderia nunca ser lavado ou pintado por cima. Não poderia nunca ser lavado nem poderia nunca ser pintado por cima.E então, quando a manhã chegou e a chuva parou e todos os porquinhos acordaram, os porquinhos descobriram que todos se tinham transformado em pequenos porquinhos verdes. Todos, menos um, claro, o nosso pequeno porquinho verde que era agora o único pequeno porquinho cor-de-rosa porque, nele, a chuva verde não fizera qualquer efeito por causa da tinta cor-de-rosa especial com que os donos da quinta o tinham pintado.E, enquanto olhava para aquele mar de pequenos porquinhos verdes à sua volta, a maior parte dos quais chorava como bébés, o porquinho sorriu e agradeceu aos céus por lhe terem permitido que continuasse a ser assim um bocadinho diferente, assim um bocadinho peculiar. Sabendo que, afinal, seria sempre um bocadinho diferente. E um bocadinho peculiar.
The Pillowman, A Play, Martin McDonagh

Para hoje....

Tuesday, October 17, 2006 | 1 Comments

Tuesday, October 17, 2006 | 0 Comments

A luz do Outono. O gotejar do tempo e das folhas.
O corredor de incontáveis portas fechadas. Os corpos esguios. Os gestos tardios. As Janelas abertas sobre promontórios de aço. Os olhos retalhados em imagens.
Emerge friamente dos flancos burilados dos dedos a cumplicidade partida antes caudal de rios.

sem título...

Monday, October 16, 2006 | 1 Comments

Começo a esgotar-me lentamente, a precisar de cada vez mais tempo para me aceder. Esbarro quase sempre com um porteiro colossal, animal prepotente de dente feroz que me impede a entrada, que me pergunta do mundo, do que havia de ser e se tornou outra coisa, que me averigua o aspecto, da conformidade, do verbo simples, do tempo alinhado em horas pontiagudas todas iguais como meninas de um colégio caro e de bom estatuto.
Afasto-me de mãos nos bolsos, à deriva no meu coração de papel.

Como chegar onde nos vemos, inteiros?
A de Amor com que te sinto; B de Borbolejos com que abrimos asas na mão dos que nos impulsionam; C de Cartas que nos surpreendem; D de Desejo por ir mais além; E de Espero-te aqui; F de Fascínio pelo teu sorriso largo; G de Garra para ir à luta; H de Hoje e de sempre; I de Intensidade em todos os pedaços de vida; J de Jasmim, nas chávenas de chá que nos aquecem; L de Liberdade pensada em cada gesto; M de Madrugada nos braços de quem amamos; N de Novidade a cada dia que passa; O de Origamis em papel de seda; P de Prazer que nos alimenta os sentidos; Q de Quadros colados à pele ;R de razão a estruturar todas as escolhas; S de Sede de nunca nos darmos por saciados; T de Tentar, sempre; U de Urgência em ser, em dar; V de Veracidade nos actos que conjugamos; X de Xailes coloridos feitos de retalhos de descobertas e aventuras; Z de Zelar por nós.

Tatuagens

Tuesday, October 10, 2006 | 4 Comments

Criar algo de único que nos recria, reinventa e acrescenta. Algo que nos pertence e depois de ter ganho vida jamais voltará a ser nosso.
Quando o nosso gesto, o nosso traço faz diferença e enriquece a vida de alguém, nesse momento, que por os outros todos vale, sabemos que a nossa arte é uma tatuagem.
Olá a todos. Lanço o desafio de listarem os vossos 10 sítios predilectos em Lisboa. E porquê? Porque eu e o meu tarzan de aventuras destemidas andamos à descoberta de novos locais mágicos de vadiagem. Queremos saber quais os vossos locais preferidos, para podermos fazer uma lista tipo "the best of" Lisboa. O objectivo é todos descobrirmos aquelas maravilhas escondidas que afinal estavam ali debaixo do nosso nariz e podermos partilhar esses cantinhos com quem mais gostamos.

Para dar o exemplo vamos listar os nossos ninhos preferidos:
0 - Esta rua faz-me lembrar aquela onde moramos, onde também passa o eléctrico, símbolo romântico de que andar de transporte público pode ser bem mais do que ir de um lado para o outro.
1 - Agora é que está a contar: Gostamos muito do museu Gulbenkian e do seu jardim
2 - Adoramos o Museu de Arte Antiga na Rua das Janelas Verdes, adoramos o jardim e a cafetaria com a sua vista ronronante sobre o Tejo. As carpetes vermelhas pesadas, o cheiro a arte secular.
3 - Adoramos os restaurantes de Alcântara: O David é o nosso preferido. Desde o cozido à portuguesa, o casquinho à maneira, a douradinha escalada, o melhor bitoque da cidade, às gambas de caril... nham.
4 - Gostamos muito do Alcântara Café, local de longas tertúlias com amigos.
5 - Bares de jazz do Bairro Alto: Páginas Tantas e Tertúlia. Gostamos muitoooo!
6 - Sintra! Sempre Sintra. A vila, as casas, a biblioteca, os cafés, o castelo, o palácio, a vista deslumbrante. Os passeios a pé serra acima.
7 - O Clube do Oriente, restaurante vegetariano no Chiado. Delicioso, tranquilo, pessoas simpáticas.
8 - Passear da Av. da Liberdade ao Chiado. No nosso Smart descapotável ou a pé.
9- Madrid! e os madrilenos. La movida. Esta não conta ok? Entusiasmei-me!
9 - Cinemateca: adoramos a cafetaria, a esplanada, a decoração. Os ciclos de cinema que acabamos por não conseguir ir ver mas que sabe bem ter aqui ao pé.
10 - Restaurante chinês em Algés, local de jantaradas noite dentro com amigos que adoramos.

Era capaz de continuar por aqui fora, por estes e muito mais e não necessariamente pela ordem apresentada, mas agora é a vossa vez.

Fico a aguardar ansiosamente pelos vossos, como uma criança à espera de doces na páscoa!
Marisa

As coisas que temos em comum...

Saturday, October 07, 2006 | 5 Comments

Meu amor,

Tu e eu temos muito em comum....
Somos almas mais que gémeas, tipo gémeas siamesas ou chinesas ou isso.
Quando te vi pela primeira vez no metro da linha azul pensei, esta é uma miuda que gosta de mar como eu. Não podia ser coincidência, os dois às 8h30 da manhã, transpirados em bica pelo entalanço da carruagem sobrelotada. Era um trajecto de vida em comum, foi isso que me despertou a atenção.
Depois os hábitos... foi aquele click (não o click de quando a porta se fecha e as chaves ficam lá dentro e gritas "f.....", não, mais aquele click da porta do frigorifico a fechar puxada pelo he-man ou íman, ou isso). Lembras-te da lista de hábitos comuns que fizemos no reverso do bilhete do metro?
  • usamos margarina Planta para barrar o pão!
  • gostamos de aproveitar o sabado, tu de manhã no cabeleireiro eu à noite no strip
  • temos o mesmo hábito de bocejar a meio da tarde com sono,
  • o mesmo hábito de pôr os despertador para acordar,
  • a mesma maneira de calçar os sapatos com calçadeira,
  • a mesma mania de tomar café e um pastel de nata ao pequeno almoço de pé ao balção a olhar para o relógio
  • a mesma preocupação por lavar as mãos antes de comer
  • ambos temos cabelos oleosos ocasionalmente com caspa
  • nunca viajamos para o estrangeiro (vá se lá confiar nessa gente)
  • ambos almoçamos ao domingo com os papás
  • já fizemos férias no algarve
  • ambos gostamos de comer fora, eu com os gajos no 21 em dia de jogo e tu em casa da tua irmã
  • vemos a mesma novela, tu porque gostas eu porque a minha mãe é um víbora fascista que não deixa mudar de canal durante essas 4h e meia
  • deitamos quase sempre entre as 22h e as 24h
  • gostamos mais de falar da vida dos outros que da nossa
  • tomamos sempre banhinho ao domingo, tu depois de limpar a casa eu depois de ir jogar a bola com a malta
  • queremos cinco filhotes, eu para ter finalmente a minha equipa de futebol tu fazeres feliz o teu maridinho,
  • ambos adoramos ler, eu a bola, tu a maria
  • temos o mesmo hábito de dizer palavrões quando batemos com o dedo mindinho na porta
  • o mesmo hábito de nos encolhermos quando o chefe resmunga e de dizer mal dele nas costas
  • a mesma vidinha, tipo gente de bem com roupa meio puída meio tecido barato para não acharem que ganhamos demais

por isso te digo, bebé, luz dos meus olhos cegos de paixão, temos uma vida pela frente, juntos, fomos feitos um para o outro, temos tudo em comum, temos tudo para a nossa vida ser um lugar comum!

Beijitos repenicados

Pergunta-me

Saturday, October 07, 2006 | 1 Comments


Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos




Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadase
se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer
Mia Couto


Eu queria...

Wednesday, October 04, 2006 | 4 Comments

..."a ideia que tens dentro de ti é sempre mais perfeita do que a que consegues fazer com as mãos. "
Jostein Gaarder in O mistério do jogo das paciências

Eu queria tanta coisa
palavras a derramar
nascer do que não existe.
acreditar em homens a rezar,
saber de ti,
mesmo sem saber se existes.

Eu sei o que queria,
mas não quero ser eu a inventar-te,
nem em sonho,
nem em promessas de amor puro,
apenas a tua nudez
como pão no deserto
a mitigar a ausência
acessa como uma fogueira
ou grito rouco.

És este rio que me percorre
tumulto surdo,
que recolhe na praia os destroços
e os cabelos encrespados em desalinho.
É apenas uma tristeza inadiável,
uma solidão habitada
em todos os compassos da espera.

Tenho o teu nome misturado
na tinta dos dias.
Tenho roçado muitos corpos
na esperança que um seja o teu,
e feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente
dormentemente
desesperadamente
à procura,
sempre à tua procura
e eu não estarei só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti que quero amar.

Eu queria que amar fosse assim...

Wednesday, October 04, 2006 | 3 Comments

Eu queria que acordar fosse assim...

Wednesday, October 04, 2006 | 0 Comments

As tuas palavras

Wednesday, October 04, 2006 | 0 Comments

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de tique tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.
Eugénio de Andrade
.... nós sabemos que já aí há um mupi que mete cotonetes, mas ninguém nos consegue tirar a satistação do "hummmmm". É certo que há por aí muito vândalo, mas escarafunchadores anónimos, dedicados à causa de remoer no fundo da cova do bichinho do ouvido (já a minha avó dizia, que Deus a tenha, que as pessoas ficavam surdas quando o bicho do ouvido morria, eu sempre achei esta curiosidade parasitária coisa estranha, mas estes saberes do povo, mais vale não contestar...)
Vai daí depois de uma infância privada de cotonizar-me, vá-se lá saber os traumas profundos que daqui advieram, descobri finalmente esses dois tufos de algodão em pauzinho de plástico feitos para escarafunchar no fundo do tímpano e vai daí o tal "entrar a 100 e sair a 200" que implica um ouvido impecavelmente escarafunchado e livre de atrito. Esta arte, de que são bem conhecedores os meus colegas do Cotonetadictos Anónimos, implica a beleza dos movimentos lentos e circulares e não está ao alcance de qualquer pois deve ser conjugada por um som articulado, meio nasalado, de gato lampeiro a refastelar-se com umas belas festas no cucuruto. Para os mais avançados, aí nível 10 e três quartos, há a chamada versão dupla, ou d.p em que se coordena, não um, mas dois! sim dois! em satisfação redobrada. E agora meus amigos, vou ali, puxar de dois que esta conversa está a dar-me uma vontadinha!...































































































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Mei and Arawn