Quando o mundo parece virado do avesso, quando queremos apenas parar e recuperar forças e recordar todos os pedacinhos luminosos de memória, "volvemos a casa". Nenhum lugar é tão doce e tão repleto de luz e alegria, nenhum lugar me diz tanto de mim nem guarda tão secretamente a minha história como as lajes da movida madrilena.
Neste vôo de raspão, encontrei Madrid como eu, em remodelações, obras por todo o lado como num gigantesco estaleiro. Achei-me em casa, entre os braços acolhedores das Puertas del Sol e as ruas sorridentes, entre tapas a escorregar do pão, entre as ruas familiares de multidão desconhecida, entre o vidro felino do Starbucks e o arranhar da caneta no papel...
Levava os bolsos cheios de saudades e de saudades os trago cheios, nesta visita tão breve como uma festa tímida quase imperceptível que nos enche de coragem para o resto do caminho. O outro, que não fala de lugares, nem viagens.
Sem mapa. Sem GPS. Sem nervoso. Muita estrada pela frente. Paz. Apenas correr mundo para dar um passinho miúdo cá dentro. Um grande sorriso e um sentimento de "Eu consigo!"

Para vocês neste fim de semana de chuva, chá e chailes quentinhos deixo-vos este presente indigente e tímido feito de surpresas... Eu sou assim, não é que não esteja sempre a mudar, mas as atitudes inesperadas, nem sempre sensatas ou aprovadas, o virar para a direita, quando o caminho mais indicado seria à esquerda, o apanhar o fruto proíbido, que por ser o mais apetecido tem outro sabor, o abrir o livro numa página qualquer e iniciar a sua leitura aí, sem querer saber o que está para trás, o guardar os bilhetinhos todos como pétalas de flores secas fosse, o chorar e o sorrir ao mesmo tempo, como os arco-iris na confluência de chuva e sol, o abrir constante dos joelhos nos gestos mais afiados e nunca, mas nunca parar de correr, de preferência de braços abertos para sentir mehor o vento e a velocidade, e o perfume do dia e tantas outras coisas que aprendo e reaprendo, apenas à força de querer melhorar, de querer ser feliz, de querer apenas... apenas amar.
Tenham um bom fim-de-semana e preparem essas galochas!
Borbolejinhos

Marie Antoinette

Friday, October 20, 2006 | 0 Comments






Sofia Coppola traz-nos um filme delicioso de uma jovem rainha, prisioneira das convenções inerentes à sua posição, desenraizada e longe do seu país, casada com um rei que se revela um desastre como amante, sedenta de diversão, beleza e amizades. Oprimida e mentalmente instável, numa corte cheia de protocolos rígidos, ela é apenas uma rapariga de 14 anos que procura distanciar-se da realidade dura e fria deslizando de festa em festa, de vestido em vestido, de gargalhada em gargalhada, acabando por ser apanhada no turbilhão de um país esfomeado e em fúria que culminou na sangrenta revolução francesa.
O argumento não é genial nem as interpretações são arrebatadoras, mas este é um filme que nos mima por todo exuberante cenário e fotografia e guarda-roupas sem igual, puro entretenimento digno da corte sumptuosa de Luís XVI e Marie Antoinette.
http://www.sonypictures.com/movies/marieantoinette/index.html

Cold

Thursday, October 19, 2006 | 1 Comments

Devias estar aqui, rente,
para dividir contigo esta amargura
dos dias partidos um a um
o rasgo do calor ausente,
dos mistérios silenciados um a um.

Querem vir viajar?

Thursday, October 19, 2006 | 0 Comments





Vou participar nesta aventura...querem vir?

The Travelling Journal

Ingredientes da felicidade

Wednesday, October 18, 2006 | 0 Comments

Ás vezes é tão simples, basta, uma gargalhada, um brindar de copos, um sorriso captado por flash ou apenas na memória, guardado para a posteridade; um abraço sentido; uma confissão, um segredo trocado como miúdos; uma bola de sabão da espuma do banho; um perfume reconhecido; um desabafar inocente; mais uma gargalhada e um pedaço de bolo entre bebericar de chá quente; uma vitória conquistada; um não ter tempo de ter sempre tempo para lá estar; o azul do sol e a luz do céu filtrados pelos olhos semicerrados; um esforço recompensado; uma prenda inesperada; um adormecer enroscado; a palavra nunca quebrada; um laço apertado; uma mensagem doce a meio da noite; acreditar que poderemos sempre acreditar... é assim tão simples a felicidade.

A história do porquinho verde

Tuesday, October 17, 2006 | 6 Comments

Era uma vez, numa quinta numa terra estranha e distante, vivia um pequeno porquinho diferente de todos os outros pequenos porquinhos ao seu redor.O pequeno porquinho era diferente de todos os outros porquinhos porque era verde, não, porque era verde fluorescente, mesmo, verde que brilhava na noite.Ora, o pequeno porquinho verde gostava realmente de ser verde. Não que ele não gostasse da cor dos outros porquinhos, não, não era nada disso, ele até achava o cor-de-rosa uma cor bonita, mas, na verdade, ele gostava de ser assim, assim verde, assim um bocadinho diferente e um bocadinho peculiar.Os outros porquinhos ao seu redor é que não gostavam nada do pequeno porquinho verde; tinham inveja da sua cor especial e, por isso, metiam-se com ele, faziam-lhe a vida negra, e as suas queixas e zangas permanentes acabaram por aborrecer os donos da quinta e um dia estes pensaram “Hmmm, o melhor é fazermos qualquer coisa para acabar com isto”.E, se bem o pensaram melhor o fizeram, e então, uma noite, quando os porquinhos estavam todos a dormir nos vastos campos da quinta, os homens agarraram no pequeno porquinho verde e levaram-no para o celeiro, com o pequeno porquinho verde sempre a guinchar e a chorar, e os outros porquinhos a rir-se dele, e quando chegaram ao celeiro os donos da quinta abriram este enorme barril cheio de uma tinta cor-de-rosa muito especial e meteram lá dentro o pequeno porquinho verde até ele ficar coberto da cabeça aos pés com aquela espessa tinta cor-de-rosa, e nem um pedacinho de verde ter sobrado, e depois mantiveram-no pendurado até a tinta acabar de secar.E o que era muito especial a propósito desta tinta cor-de-rosa era que esta tinta não poderia nunca ser lavada ou pintada por cima. Não poderia nunca ser lavada nem poderia nunca ser pintada por cima.E o pequeno porquinho verde pensou “oh, por favor, meu deus, por favor, não me deixes ser como o resto dos porquinhos, eu gosto tanto de ser assim um bocadinho peculiar”.Mas era tarde demais. A tinta tinha secado e os donos da quinta mandaram o pequeno porquinho para junto dos outros porquinhos, e todos os porquinhos cor-de-rosa se riram do pequeno porquinho à medida que ele caminhava, triste, até chegar ao seu pedaço de relva favorito, tentando perceber porque é que deus não tinha escutado as suas preces, mas não conseguia entender e então chorou, chorou até adormecer mas mesmo as dezenas de lágrimas que chorou não podiam lavar aquela horrível tinta cor-de-rosa pois aquela tinta não poderia nunca ser lavada nem poderia nunca ser pintada por cima.Ora, nessa noite, enquanto todos os porquinhos continuavam a dormir nos campos da quinta, veio esta estranha tempestade, com grandes e grossas nuvens, e começou a chover, devagarinho primeiro mas depois com mais força e mais força e mais força.E esta chuva não era uma chuva normal mas uma chuva verde muito especial, quase tão espessa como tinta e, mais do que isso, esta era uma chuva ainda mais especial porque o verde desta chuva não poderia nunca ser lavado ou pintado por cima. Não poderia nunca ser lavado nem poderia nunca ser pintado por cima.E então, quando a manhã chegou e a chuva parou e todos os porquinhos acordaram, os porquinhos descobriram que todos se tinham transformado em pequenos porquinhos verdes. Todos, menos um, claro, o nosso pequeno porquinho verde que era agora o único pequeno porquinho cor-de-rosa porque, nele, a chuva verde não fizera qualquer efeito por causa da tinta cor-de-rosa especial com que os donos da quinta o tinham pintado.E, enquanto olhava para aquele mar de pequenos porquinhos verdes à sua volta, a maior parte dos quais chorava como bébés, o porquinho sorriu e agradeceu aos céus por lhe terem permitido que continuasse a ser assim um bocadinho diferente, assim um bocadinho peculiar. Sabendo que, afinal, seria sempre um bocadinho diferente. E um bocadinho peculiar.
The Pillowman, A Play, Martin McDonagh

Para hoje....

Tuesday, October 17, 2006 | 1 Comments

Tuesday, October 17, 2006 | 0 Comments

A luz do Outono. O gotejar do tempo e das folhas.
O corredor de incontáveis portas fechadas. Os corpos esguios. Os gestos tardios. As Janelas abertas sobre promontórios de aço. Os olhos retalhados em imagens.
Emerge friamente dos flancos burilados dos dedos a cumplicidade partida antes caudal de rios.

sem título...

Monday, October 16, 2006 | 1 Comments

Começo a esgotar-me lentamente, a precisar de cada vez mais tempo para me aceder. Esbarro quase sempre com um porteiro colossal, animal prepotente de dente feroz que me impede a entrada, que me pergunta do mundo, do que havia de ser e se tornou outra coisa, que me averigua o aspecto, da conformidade, do verbo simples, do tempo alinhado em horas pontiagudas todas iguais como meninas de um colégio caro e de bom estatuto.
Afasto-me de mãos nos bolsos, à deriva no meu coração de papel.

Como chegar onde nos vemos, inteiros?
A de Amor com que te sinto; B de Borbolejos com que abrimos asas na mão dos que nos impulsionam; C de Cartas que nos surpreendem; D de Desejo por ir mais além; E de Espero-te aqui; F de Fascínio pelo teu sorriso largo; G de Garra para ir à luta; H de Hoje e de sempre; I de Intensidade em todos os pedaços de vida; J de Jasmim, nas chávenas de chá que nos aquecem; L de Liberdade pensada em cada gesto; M de Madrugada nos braços de quem amamos; N de Novidade a cada dia que passa; O de Origamis em papel de seda; P de Prazer que nos alimenta os sentidos; Q de Quadros colados à pele ;R de razão a estruturar todas as escolhas; S de Sede de nunca nos darmos por saciados; T de Tentar, sempre; U de Urgência em ser, em dar; V de Veracidade nos actos que conjugamos; X de Xailes coloridos feitos de retalhos de descobertas e aventuras; Z de Zelar por nós.

Tatuagens

Tuesday, October 10, 2006 | 4 Comments

Criar algo de único que nos recria, reinventa e acrescenta. Algo que nos pertence e depois de ter ganho vida jamais voltará a ser nosso.
Quando o nosso gesto, o nosso traço faz diferença e enriquece a vida de alguém, nesse momento, que por os outros todos vale, sabemos que a nossa arte é uma tatuagem.
Olá a todos. Lanço o desafio de listarem os vossos 10 sítios predilectos em Lisboa. E porquê? Porque eu e o meu tarzan de aventuras destemidas andamos à descoberta de novos locais mágicos de vadiagem. Queremos saber quais os vossos locais preferidos, para podermos fazer uma lista tipo "the best of" Lisboa. O objectivo é todos descobrirmos aquelas maravilhas escondidas que afinal estavam ali debaixo do nosso nariz e podermos partilhar esses cantinhos com quem mais gostamos.

Para dar o exemplo vamos listar os nossos ninhos preferidos:
0 - Esta rua faz-me lembrar aquela onde moramos, onde também passa o eléctrico, símbolo romântico de que andar de transporte público pode ser bem mais do que ir de um lado para o outro.
1 - Agora é que está a contar: Gostamos muito do museu Gulbenkian e do seu jardim
2 - Adoramos o Museu de Arte Antiga na Rua das Janelas Verdes, adoramos o jardim e a cafetaria com a sua vista ronronante sobre o Tejo. As carpetes vermelhas pesadas, o cheiro a arte secular.
3 - Adoramos os restaurantes de Alcântara: O David é o nosso preferido. Desde o cozido à portuguesa, o casquinho à maneira, a douradinha escalada, o melhor bitoque da cidade, às gambas de caril... nham.
4 - Gostamos muito do Alcântara Café, local de longas tertúlias com amigos.
5 - Bares de jazz do Bairro Alto: Páginas Tantas e Tertúlia. Gostamos muitoooo!
6 - Sintra! Sempre Sintra. A vila, as casas, a biblioteca, os cafés, o castelo, o palácio, a vista deslumbrante. Os passeios a pé serra acima.
7 - O Clube do Oriente, restaurante vegetariano no Chiado. Delicioso, tranquilo, pessoas simpáticas.
8 - Passear da Av. da Liberdade ao Chiado. No nosso Smart descapotável ou a pé.
9- Madrid! e os madrilenos. La movida. Esta não conta ok? Entusiasmei-me!
9 - Cinemateca: adoramos a cafetaria, a esplanada, a decoração. Os ciclos de cinema que acabamos por não conseguir ir ver mas que sabe bem ter aqui ao pé.
10 - Restaurante chinês em Algés, local de jantaradas noite dentro com amigos que adoramos.

Era capaz de continuar por aqui fora, por estes e muito mais e não necessariamente pela ordem apresentada, mas agora é a vossa vez.

Fico a aguardar ansiosamente pelos vossos, como uma criança à espera de doces na páscoa!
Marisa

As coisas que temos em comum...

Saturday, October 07, 2006 | 5 Comments

Meu amor,

Tu e eu temos muito em comum....
Somos almas mais que gémeas, tipo gémeas siamesas ou chinesas ou isso.
Quando te vi pela primeira vez no metro da linha azul pensei, esta é uma miuda que gosta de mar como eu. Não podia ser coincidência, os dois às 8h30 da manhã, transpirados em bica pelo entalanço da carruagem sobrelotada. Era um trajecto de vida em comum, foi isso que me despertou a atenção.
Depois os hábitos... foi aquele click (não o click de quando a porta se fecha e as chaves ficam lá dentro e gritas "f.....", não, mais aquele click da porta do frigorifico a fechar puxada pelo he-man ou íman, ou isso). Lembras-te da lista de hábitos comuns que fizemos no reverso do bilhete do metro?
  • usamos margarina Planta para barrar o pão!
  • gostamos de aproveitar o sabado, tu de manhã no cabeleireiro eu à noite no strip
  • temos o mesmo hábito de bocejar a meio da tarde com sono,
  • o mesmo hábito de pôr os despertador para acordar,
  • a mesma maneira de calçar os sapatos com calçadeira,
  • a mesma mania de tomar café e um pastel de nata ao pequeno almoço de pé ao balção a olhar para o relógio
  • a mesma preocupação por lavar as mãos antes de comer
  • ambos temos cabelos oleosos ocasionalmente com caspa
  • nunca viajamos para o estrangeiro (vá se lá confiar nessa gente)
  • ambos almoçamos ao domingo com os papás
  • já fizemos férias no algarve
  • ambos gostamos de comer fora, eu com os gajos no 21 em dia de jogo e tu em casa da tua irmã
  • vemos a mesma novela, tu porque gostas eu porque a minha mãe é um víbora fascista que não deixa mudar de canal durante essas 4h e meia
  • deitamos quase sempre entre as 22h e as 24h
  • gostamos mais de falar da vida dos outros que da nossa
  • tomamos sempre banhinho ao domingo, tu depois de limpar a casa eu depois de ir jogar a bola com a malta
  • queremos cinco filhotes, eu para ter finalmente a minha equipa de futebol tu fazeres feliz o teu maridinho,
  • ambos adoramos ler, eu a bola, tu a maria
  • temos o mesmo hábito de dizer palavrões quando batemos com o dedo mindinho na porta
  • o mesmo hábito de nos encolhermos quando o chefe resmunga e de dizer mal dele nas costas
  • a mesma vidinha, tipo gente de bem com roupa meio puída meio tecido barato para não acharem que ganhamos demais

por isso te digo, bebé, luz dos meus olhos cegos de paixão, temos uma vida pela frente, juntos, fomos feitos um para o outro, temos tudo em comum, temos tudo para a nossa vida ser um lugar comum!

Beijitos repenicados

Pergunta-me

Saturday, October 07, 2006 | 1 Comments


Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos




Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadase
se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer
Mia Couto


Eu queria...

Wednesday, October 04, 2006 | 4 Comments

..."a ideia que tens dentro de ti é sempre mais perfeita do que a que consegues fazer com as mãos. "
Jostein Gaarder in O mistério do jogo das paciências

Eu queria tanta coisa
palavras a derramar
nascer do que não existe.
acreditar em homens a rezar,
saber de ti,
mesmo sem saber se existes.

Eu sei o que queria,
mas não quero ser eu a inventar-te,
nem em sonho,
nem em promessas de amor puro,
apenas a tua nudez
como pão no deserto
a mitigar a ausência
acessa como uma fogueira
ou grito rouco.

És este rio que me percorre
tumulto surdo,
que recolhe na praia os destroços
e os cabelos encrespados em desalinho.
É apenas uma tristeza inadiável,
uma solidão habitada
em todos os compassos da espera.

Tenho o teu nome misturado
na tinta dos dias.
Tenho roçado muitos corpos
na esperança que um seja o teu,
e feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente
dormentemente
desesperadamente
à procura,
sempre à tua procura
e eu não estarei só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti que quero amar.

Eu queria que amar fosse assim...

Wednesday, October 04, 2006 | 3 Comments

Eu queria que acordar fosse assim...

Wednesday, October 04, 2006 | 0 Comments

As tuas palavras

Wednesday, October 04, 2006 | 0 Comments

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de tique tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.
Eugénio de Andrade
.... nós sabemos que já aí há um mupi que mete cotonetes, mas ninguém nos consegue tirar a satistação do "hummmmm". É certo que há por aí muito vândalo, mas escarafunchadores anónimos, dedicados à causa de remoer no fundo da cova do bichinho do ouvido (já a minha avó dizia, que Deus a tenha, que as pessoas ficavam surdas quando o bicho do ouvido morria, eu sempre achei esta curiosidade parasitária coisa estranha, mas estes saberes do povo, mais vale não contestar...)
Vai daí depois de uma infância privada de cotonizar-me, vá-se lá saber os traumas profundos que daqui advieram, descobri finalmente esses dois tufos de algodão em pauzinho de plástico feitos para escarafunchar no fundo do tímpano e vai daí o tal "entrar a 100 e sair a 200" que implica um ouvido impecavelmente escarafunchado e livre de atrito. Esta arte, de que são bem conhecedores os meus colegas do Cotonetadictos Anónimos, implica a beleza dos movimentos lentos e circulares e não está ao alcance de qualquer pois deve ser conjugada por um som articulado, meio nasalado, de gato lampeiro a refastelar-se com umas belas festas no cucuruto. Para os mais avançados, aí nível 10 e três quartos, há a chamada versão dupla, ou d.p em que se coordena, não um, mas dois! sim dois! em satisfação redobrada. E agora meus amigos, vou ali, puxar de dois que esta conversa está a dar-me uma vontadinha!...































































































Uma prenda e duas mão vazias...

Friday, September 29, 2006 | 0 Comments

A minha irmã não faz anos hoje, mas isso nao é menos razão para a compensar de uma hora de almoço na loja do cidadão a resolver chatices com uma prenda.
Não falo de algo que surja de uma investida pelas lojas, de imaginação em punho na busca do equilíbrio com a outra mão, onde segue leve a carteira. Não. Uma prenda assim é pouco, demasiado pouco para que possa ficar satisfeita, porventura tão pouco que nem necessária é. Uma prenda qualquer pessoa pode dar, na volta até dão o mesmo que eu, ou melhor ainda, depende da carteira que nem sempre é do tamanho do nosso coração. Quase nunca.
O dia está de chuva, estes dias também são bons, eu gosto. Há qualquer que me agrada, talvez a melancolia da água a bater nos vidros, ou a incomodidade de um chapéu para quando chove a direito, ou apenas a voz dela ao meu lado a apontar o reflexo prateado da luz tímida no rio quedo.
Ela é uma personagem incontornável da minha vida. O que não sabe de mim? Não faço ideia, desconfio que sabe mais de mim do que eu própria. Horas e horas a aturar-me, não é fácil, horas e horas a ouvir-me, sobre tudo, mas principalmente, sobre nada. Não era a mesma sem ela, nem este blog não seria o mesmo sem ela, quanto mais eu. Quando acontece qualquer coisa importante, está ali, quando acontece qualquer coisa sem importância nenhuma está ali na mesma, nos bons e nos maus momentos, a chorar, a rir, a ralhar comigo, e é tão giro! :) Mas não se iludam, ela não é a melhor amiga do mundo nem é perfeita e nisso estamos perfeitamente bem uma para a outra. Desejamos aperfeiçoarmo-nos, mas não nos vemos perfeitas. Sobretudo é uma à outra que vemos no espelho e não apenas a projecção dos nossos desejos e do que queríamos que a outra fosse. A nossa união cerrada não foi resultado de nenhuma contrariedade ou nenhum momento extraordinariamente difícil e deprimente ou efusivo e vitorioso, não. Pois claro que já os vivemos e não foram poucos, mas dissolvidos noutra coisa extraordinária que é a rotina de todos os dias, o ram-ram, o búlico do tédio. A nossa amizade vem de não termos deixado de ter coisas para dizer ou aprender.
Já morei no quarto ao lado do dela e batia na parede quando precisava dela e sei que apesar dos nós nos meus dedos na parede forrada a papel não fazerem qualquer barulho que elas os ouvia sempre, porque a verdade é que vinha sempre ter comigo. A minha irmã é das pessoas mais curiosas que eu conheço, não suporta que lhe escondamos o sorriso que mora do lado de dentro dos lábios, nem as conversas ocas tecidas de lugares comuns. A minha irmã tem defeitos às carradas, tal como eu. A minha irmã lê tudo o que eu escrevo. A minha irmã fica rabugenta quando está cansada. A minha irmã irrita-me quando eu lhe pergunto o caminho e ela responde com ar trocista de quem nunca se perde. A minha irmã faz-me corar de vergonha quando falo dos defeitos dos outros e me diz que eu já fiz o mesmo. A minha irmã nunca me falhou quando eu precisei dela. A minha irmã adora atúuuuuuuuuuuum. A minha irmã faz-me sentir uma princesa das histórias de encantar que nunca lemos em pequenas quando me deixa usar as roupas e sapatos dela. A minha irmã nunca me inventou desculpas, só me inventou desenhos para eu limpar a tristeza da cara.
Hoje é o dia do seu não aniversário, às vezes tenho postais para estes dias, outras flores, outras yogutes acabadinhos de fazer, hoje não tenho nada disso e foi de propósito. Ela é demasiado importante para que uma simples prenda possa fazer a diferença. Fiz um texto. Porque mais ninguém sabe o que eu sei, mais ninguém vive paredes-meias com ela. Eu sei que há muita gente que tem o mesmo privilégio que eu tenho, mas também sei que as pessoas às vezes são distraídas e, como nós, imperfeitas, e se esquecem, vá se lá saber como, deve ser do queijinho é uma coisa muito boa que nos branqueia a memória tipo efeito neoblanc nos lençois, por isso convém ir lembrando. Por tudo isto, por mais um dia de não aniversário que é, como já se viu, uma desculpa como outra qualquer para nunca esquecer de amar.

Perdas

Thursday, September 28, 2006 | 0 Comments

Ontem um amigo suicidou-se com veneno....
Ainda sinto o sabor na boca...



Dizem: meu verso é triste: não admira
Abarca a estreita medida
tristes lágrimas de ira
Não minhas, da vida.

Isto se escreve para os não-nascidos,
gerados em vão,
lerem quando se virem consumidos
E eu não

Alfred Edward Housman
Inglaterra 1859-1936
Jorge de Sena (Poesia do Sec XX - ASA)

a tua e a minha...Liberdades ?!

Thursday, September 28, 2006 | 0 Comments

não fuja ao fisco
não faça sexo sem preservativo
não atravesse fora da passadeira
não se deite tarde
não fale com a boca cheia
não diga mal do próximo
não buzine perto de hospitais
não fume
não beba
não consuma drogas
não coma gorduras
não fale com estranhos
não dê gargalhadas sonoras
não transporte crianças sem cadeirinha
não conduza sem cinto de segurança
não se esqueça de reciclar
não diga palavrões
não cobice a mulher do próximo
não coma de boca aberta
não brinque com o fogo
não se esqueça de ver a novela
não pise os jardins públicos
não entre na água sem ter feito a digestão
não se esqueça de apagar a luz
não estacione em segunda fila
não mate
não roube
não tome banhos de sol sem protector
não se deite sem lavar os dentes
não chegue atrasado ao emprego
não passe à frente nas filas
não se enerve
não faça barulho nas escadas à noite
não segue aos 30 sem arrumar o assunto do casamento
não chegue aos 40 sem arrumar o assunto dos filhos
não utilize o telemóvel no avião
Não comece uma frase com letra minúscula
não diga mal das ONG
não se esqueça dos seus deveres

Descobertas breves

Wednesday, September 27, 2006 | 0 Comments

Eu não sabia ser tão raro
este estar sem ressentimento
quando a vida se evade
em ruas e janelas equidistantes.
Eu não sabia que era assim tão fácil
deixar secar o caudal neste vazio insofismável
cera seca de velas velando o nada.
Eu não sabia estar tão longe,
esquecida de quem era
ou do que queria.
nem da facilidade de encher cadavéres
com lembraças
fingindo ser gente a sério
e sem saber
e estando queda, muda,
dedilhei com a flor dos dedos
as cordas de harpa
esticadas sobre o porão dos dias.

Uma nova filosofia

Tuesday, September 26, 2006 | 0 Comments

Do grego Φιλοσοφία: philia - amor, amizade + sophia - sabedoria "É uma disciplina, ou uma área de estudos, que envolve a investigação, análise, discussão, formação e reflexão de ideias ou visões de mundo. Originou-se da inquietação gerada pela curiosidade humana em compreender e questionar."

Esta definição podemos ler em qualquer entrada de dicionário ou caderno escolar.












A definição parece óbvia e fácil, mas há perspectivas que nos escapam. Quando pensamos em "filosofo", pensamos num senhor sério de barbas e ar douto, mas a filosofia não é apenas um caderno engomado, é algo suspenso dentro e fora de nós a moldar as nossas opções e um filósofo, bem um filósofo é tão simplesmente aquela pessoa com uma visão estruturada do mundo que nos leva a reflectir sobre inúmeros aspectos que de outra forma nos escapariam. Ontem havia alguém que dizia que a “Prova Oral” é um “Serviço Público”, esse como outros programas que, com um sorriso bem disposto e ligeiro nos levam a discutir assuntos tão diferentes de fetiches a novas tecnologias e a repensar a (r)evolução de cada dia, as camadas de pele, sangue e ideologias que fazem de nós o que nos projectamos ser. Esses são os filósofos da nossa Era, sem fato, nem sacola de livros, apenas uma voz límpida que nos dá vontade de ficar a ouvir, um postura crítica que nos dá vontade de questionar, uma simpatia que cria empatia e reune discípulos de todas as idades e profissões. Porque ouvimos vezes demais "quero um bife", "quero uma prenda", "quero um carro novo", "quero ir às compras" e muito muito poucas "eu quero saber pensar".

Um grito bem alto: Luv' ya!

Tuesday, September 26, 2006 | 1 Comments

"A friend is one of the nicest things you can have, and one of the best things you can be."

Há em mim qualquer coisa de patético que me faz dizer não só aquilo que penso, como aquilo que sinto. Assola-me uma espécie de urgência, se não digo a quem me é importante o quanto gosto dessa pessoa, lavada em lágrimas ou a chorar de felicidade.
Ser amigo é mais do que ligar todos os dias, ir ao café, fazer grandes noitadas e ouvir confidências – é dizer que se gosta sem vergonha, mostrar que se morressemos amanhã morríamos mais ricos, porque esse nosso amigo tinha passado pela nossa vida. É partilhar quando algo de importante nos acontece e a alegria é tão grande que o nosso sorriso é pequeno para a expressar, mesmo que num simples telefonema. Um pequeno gesto faz tudo valer a pena.
Às vezes, enquanto deambulo de carro na noite escura pela cidade pergunto-me se terei feito tudo o que estava ao meu alcance pelos meus amigos. Se eles foram dormir a saber que eu durmo a precisar deles como preciso de ar e que acordo a precisar deles como quem precisa de sol, por isso quando ouço alguém dizer que "amanhã logo lhe ligo, quero lá saber", ou "aquele anormal sabe que eu gosto dele, uma noite destas encontramo-nos no Bairro e, no meio da bebedeira, esquecemos tudo." há qualquer coisa em mim que estremece, amar não devia ser deixado para "um dia destes". E vem-me à memória uma frase batida "Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje". Há coisa melhor do que ouvir um envergonhado "gosto de ti" de alguém de quem se gosta? Haverá certamente poucas coisas…Por isso este post é para vocês. Um grito bem alto, neste céu ainda azul: GOSTO MUITO DE TI!

A Felicidade exige valentia

Monday, September 25, 2006 | 0 Comments

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um "não".
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo...
Fernando Pessoa

Adormecer ao teu som...

Sunday, September 24, 2006 | 0 Comments

Eles são duas crianças a viver esperanças, a saber sorrir.
Ela tem cabelos louros, ele tem tesouros para repartir.
Numa outra brincadeira passam mesmo à beira sempre sem falar.
Uns olhares envergonhados e são namorados sem ninguém pensar.

Foram juntos outro dia, como por magia, no autocarro, em pé.
Ele lá lhe disse, a medo: "O meu nome é Pedro e o teu qual é?"
Ela corou um pouquinho e respondeu baixinho: "Sou a Cinderela".
Quando a noite o envolveu ele adormeceu e sonhou com ela...

Então, Bate, bate coração
Louco, louco de ilusão
A idade assim não tem valor.
Crescer,vai dar tempo p'ra aprender,
Vai dar jeito p'ra viver
O teu primeiro amor.
(...)
Carlos Paião

"Percebi que as nossas vidas não passam de uma série de momentos - se perdermos esses momentos perdemos a vida."
Robin Sharma

The Pillowman

Saturday, September 23, 2006 | 0 Comments

Katurian é apenas um contador de histórias, um escritor. Mas nada tem de simples esta tarefa, esta vida povoada de contos tenebrosos semeados de deformações da ética, da percepção do bem, do mal e da dor a ele inerente.
Dizer que The Pillowman é uma analise da natureza humana e da natureza catártica da escrita é ficar aquém. A responsabilidade moral sobre o efeito da escrita, da educação parental, do regime político é escalpeado até à nausea e, no entanto, há uma capacidade de tornar acontecimentos violentíssimos em actos quase compreendidos por nós que faz deste texto uma peça psicologicamente muito complexa e emocionalmente extenuante.
The Pillowman não é uma história são muitas, não é uma realidade são várias, é fragmentos e fragmentos daqueles que nos solificam e nos dizem quem somos para além da argamassa de nervos, sangue e consciência.
Eu contava-vos a história se conseguisse, mas as palavras secam-me nos ossos antes que possa repetir uma frase sequer, se quiserem desafiar o vosso julgamento a reflectir sobre o comportamento humano e as suas mais negras verdades, não deixem de ir ver. Gosta-se, mas incomoda, incomoda muito.

http://teatromariamatos.egeac.pt/desktopdefault.aspx

Achievements

Friday, September 22, 2006 | 2 Comments

Hoje a navegar pela imensidão deste mundo que é a internet descobri esta página...
http://br.geocities.com/gresjornal/2001/pag2010.html

É bom ter alguém que escreva sobre o nosso trabalho com esta intensidade, só por isto vale a pena cada palavra, cada esforço longo dos músculos, cada cerrar dos dentes para travar a luta, cada abraço, cada sorriso, cada joelho rasgado, cada levantar, cada manhã, só por isto vale a pena continuar!

Bimby - A fada do lar

Friday, September 22, 2006 | 1 Comments

Há dias que ando com um bichinho cá dentro para escrever sobre um gadget que descobri em casa de uns amigos! Se achavam que ter um micro-ondas e uma picadora 1,2,3 era moderno, desenganem-se, estão na pré-história. O futuro chama-se.....(rufos).... Bimby! Esta ajudante de cozinha, imbatível, inovadora e sem rival, combina numa só máquina funções de dez processadoras. Ela pica, rala, corta, bate, amassa, moe, tritura, pesa, emulsiona e cozinha! E......pasme-se, lava-se sozinha (ideal era lavar a loiça, mas não se pode pedir tudo).
Eu acho que não tarda muito temos um clube de fãs deste pequena maravilha, tal é o entusiasmo e o brilhozinho nos olhos que se acende quando alguém me fala da Bimby. Tal é o ímpeto! Já vi casamentos menos convictos que a comunhão doméstica que se dá quando este hóspede se instala lá em casa.
É verdade que tem menos funcionalidades que uma empregada russa, mas é uma tentação... para ser perfeita só lhe falta mesmo dar umas palmadinhas.

The Gathering Party 10

Thursday, September 21, 2006 | 2 Comments

No próximo dia 11 de Novembro realiza-se no Santiago Alquimista, em Lisboa, a 10ª The Gathering Party, o maior evento português dedicado ao fetichismo.A segunda edição de 2006 tem, como já vem sendo habitual, vários motivos de interesse, entre os quais se destaca a presença e actuação da holandesa Brigitte More e da norte-americana Miss Shane. A festa, que já se tornou um ponto de encontro obrigatório para todos os que partilham o gosto por este universo alternativo, ultrapassou fronteiras e conta entre as presenças confirmadas com participantes espanhóis e ingleses, entre outros.

"The Gathering Party é um encontro para a comunidade Fetichista/BDSM. É um evento internacional, em que o requisito é apresentar-se de acordo com o dress code: Latex, cabedal, vinil, uniformes, acessórios fetichistas (luvas, botas, saltos altos) e relacionados com a imagética BDSM (algemas, chicotes, etc), ou traje completamente negro. O ambiente é marcadamente sexy e insinuante. A música é forte e as animações em palco coincidentes com o tema: demonstrações bondage, danças exóticas executadas por bailarinas góticas, sapatos de pontas à bailarina com saltos agulha afiados, dominadoras e escravos e muito mais. "

A contribuir para o crescimento do evento, o interesse cada vez maior dos meios de comunicação social, tendo a organização participado em vários programas, o que sucederá mais uma vez hoje, pelas 19 h, no programa Prova Oral da Antena 3, com a minha colega bloguista no ar! Não percam!

Decididamente The Gathering Party é um evento ao qual não se podes faltar!
www.thegatheringparty.org

Permanentemente

Thursday, September 21, 2006 | 0 Comments

A vida veste-se de muitas caras, de rostos que deliniam a direcção do nosso olhar. De muitas partidas e chegadas como grande cargueiros de transporte, mas tu não fazes parte deles. Tu fazes parte do que vou sendo, do que descubro que posso ser, da enxada a que me encosto para descansar, do bater do coração acelerado, das perguntas todas, do revolver das respostas, tu fazes parte do salto ousado e do refúgio, do silêncio e do alento, e cada pele que pele se torna tem o reflexo da tua presença.

Âncoras

Thursday, September 21, 2006 | 0 Comments

Não me lembro de nenhum momento de extrema solidão na minha vida, em que estivesse completa e desoladamente só. Não sei sequer a que é que isso poderá corresponder. Esse sentimento de absoluto e inevitável silêncio. O não nos termos sequer a nós por companhia. Será isso? Não o sei. Sempre tive pequenas bóias de navegação. Outras vezes maiores. A disciplina da minha mãe, a compreensão do meu pai, o carinho da minha ama. Os meus amigos, os meus livros, os meus desenhos que sempre completaram os meus traços e depois veio o Miguel que parece que é parte das minhas veias há tanto. Sempre tive âncoras. Ou se calhar era só eu que as via, não sei. Sempre tive esse optimismo cego de achar que "tudo se resolve", que hei-de conseguir lá chegar. Seja isso onde quer que seja. Mesmo nos momentos de quebra, não sei bem como, sempre me senti suspensa. Como fios invisíveis de cordas, como as notas das músicas que se prendem umas às outras, como as letras que formam as palavras e que seguram as coisas a que pertencem.
Das dúvidas que assolaram a minha vigília sobre o mundo aos sonhos que persigo como candeias de orientação, sempre resultaram passos, trémulos às vezes, valentes noutras. Tantas vezes às avessas, na linha de trás do pano. Tantas vezes o adeus, que nem gosto de dizer. Tantas vezes a imagem de caras de quem gosto e que já não caminham os meus dias. Não sei o que fazer dos caminhos perdidos, nem dos outros nem dos meus. Nunca os vi. Se os vi não me dei conta. Passaram por entre os espaços da rede da minha memória. Costumo dizer que tenho memória selectiva. Acho que quanto mais me convenço disso mais selectiva ela se torna, por empatia. Para meu bem, suponho. Para nosso. Se não me lembro também não faz mal, é porque não deveria ser importante, pois do importante lembro-me de tudo. Deve ser suposto ser assim. O que me prende à vida é respirarem tantas vezes por mim.

Super, Hiper, X-Girl Friend!

Wednesday, September 20, 2006 | 0 Comments

Ora cá vamos nós outra vez ao cinema. E o que escolhemos? Um daqueles levinhos, bem dispostos, bons companheiros da prazerosa arte de pipocar. Ora venham lá dois bilhetinhos King Card para "A minha super ex-namorada" faz favor. E este filme, meus amigos, cumpre as expectativas e ultrapassa-as! Ah pois é! Não que fossem muito elevadas. Muito embora no cartaz Uma Thurman pareça apenas uma versão moderna da mítica série "A minha mulher é uma feitiçeira", faltando-lhe apenas a vassoura para lhe dar aquele toque sinistro de bruxa com aspirações a fada do lar, a verdade é que nos deparamos com uma super heroína que voa, lança raios com os olhos, tem um sopro de loba-má que derruba paredes, pára misseis e uma panóplia mais de habilidades e super-poderes, dignos de uma verdadeira Super-Mulher.
Mas ver uma super heroína no recato da alcova, a violar um desgraçado vai muito além do mais selvagem dos sonhos de apreciadores de super heróis. Vai ao encontro das infindáveis horas de fantasias que todos guardamos desde a infância. Como serão estes tipos quando nem os papparazi os apanham? Serão tão quecadélicos quanto parecem?
Uma está excelente como Jenny/G-Girl (é quase impossível não pensar em associações libidinosas certo?) e o cara de cachorrinho sem dono, Luke Wilson na pele de Matt, o namorado fugídio e cobardolas dá-nos momentos de incontrolável risota. Os problemas dele começam quando decide pôr-se ao fresco, ao perceber que ela é possessiva, ciumenta e neurótica e com um temperamento incontrolável. Somando isto à sua superforça, capacidade de voar e tal, conseguem imaginar o cabo dos trabalhos em que acabou de se meter, não é?
O tom do filme, com as suas piadas constantes é uma marca do director Ivan Reitman, responsável por um dos maiores ícones oitentistas, os Caça-Fantasmas. E Reitman prova que está em plena forma, apesar de ter dirigido pela última vez em 2001, o filme Evolution.
Boa parte do mérito tem de ser dividido com o elenco que está mesmo em grande.
Mas ao incluir personagens descartáveis - como o melhor amigo (Rainn Wilson, de A Sete Palmos e The Office) e um supervilão (Eddie Izzard) só para contar de onde vêm os tais superpoderes - a força da trama dilui-se um pouco. É mais ou menos como se o Superman passasse a ser apenas o Clark Kent. É a tal coisa, sensação Dodot.
Fora isso e com umas pipocas quentinhas é de lamber os beiços.

Refresh

Tuesday, September 19, 2006 | 3 Comments

Hoje vim aqui limpar a soleira da porta do nosso blog.
Quero empurrar isso para longe com este post. Quero que como uma enxurrada essas fotos e textos tristes sejam lavados. Estão a arrepiar-me por dentro, fazendo com que todos os pensamentos bons sejam empurrados para as paredes do cérebro e que lá fiquem escondidinhos.

Então cá vai um fiozinho de boa disposição que encontrei num blog de amigos ;)

"Sabes onde é que estão os amigos fixes? Sabes onde é que eles estão? Mas mesmo mesmo mesmo, fixes, mesmo mesmo. Eh pá, fixes? Aqueles amigos que tu olhas para eles e dizes: "Eh pá estes amigos são mesmo fixes!" Sabes onde é que eles estão, esses amigos tão fixes que até chateiam porque são fixes, os marotos? Sabes onde é que eles estão?
Sabes sabes SABES?
(Sei.)
Eu também! Um deles está agarrado ao computador e a ler o meu space!"

When it stops it stops

Friday, September 15, 2006 | 0 Comments

You said I began
This messy state of love affairs
And I drink too much and smoke too fast
And this city's cleared my innocence
...
I heard the trains are running late
And I laugh out loud
My life's a mess
I have gone too far
In my lifelessness
....
And in an hour I walked on home
In the pouring shower
Lost my keys in front of me
My neighbor smiles he’s handing me
The blackest coffee you will ever see
And when it stops it stops
My heart stopped beating...

Emiliana Torrini- Heartstopper, The Fisherman`s Woman (2005)

Fragilidade

Friday, September 15, 2006 | 1 Comments

Volatilidade

Friday, September 15, 2006 | 0 Comments

Palavreando

Friday, September 15, 2006 | 1 Comments

Hoje apetece-me "a-palavrar-vos".
"Arco-íris" é linda, leve, luminosa e tem um som maravilhoso. "Erva cidreira", "adágio", "amígdalas", "serenata" e "morango" também são bonitas. Os astros em geral têm uns bons nomes: "Terra", "Júpiter", "Vénus", "Urano"... e "Sol" e "Lua" que, com os seus nomes curtos e definitivos, formam um casal especial. Carregam esse simbolismo de masculino-feminino e não só resistem ao tempo, como são usados para medir a passagem dele. As cores também foram bem baptizadas. "Azul", "lilás", "preto", "branco", "verde". Até "vermelho" que é uma palavra forte e agressiva, combina com a cor que representa. Só tenho dúvidas em relação ao "amarelo". Sempre achei que merecia um nome melhor. Certas palavras não é que sejam bonitas, mas são simpáticas. É o caso de "pipoca", "camelo", "bolota", "caneca", "galocha" e "chupeta". Algumas são quase boas, mas parece que têm um "r" no lugar errado: "crocodilo", "lagartixa". Outras têm um "r" a mais: "próprio" e "frustrado".
Há palavras pequenas muito bem construídas como "bola", "tatu", "aço", "raio", "coco", "uva". Há outras que são compridas, mas bem equilibradas: "paralelepípedo", "sonoplastia", "velocidade", "dicionário", "caleidoscópio", "literatura", "pirilampo". E há as de tamanho médio que formam a base de nossa agradável língua: "selvagem", "primavera", "órbita", "hortelã", "liberdade", "perímetro", "lágrima", "destino", "pigmento".
O corpo humano tem palavras lindas para compensar outras que não quero nem citar. "Boca", "pernas", "dedos", "olhos", "cabelos", "lábios". São todos lindos, especialmente os do corpo feminino. Alguns verbos são bonitos e fáceis de praticar: "saborear", "espreguiçar", "cantar", "seduzir", "envolver", "esquecer". Já o verbo "amar" é simples e directo, mas tão difícil de ser dito e realizado.
Depois há aquelas palavras interessantes que são desperdiçadas em papéis menores: "meretriz", "coliformes", "migalhas". Outras são confusas como "guarda-chuva". "Guarda-roupa" faz sentido, mas "guarda-chuva"? Em espanhol diz-se "paraguas", que é mais lógico. "Céu" e "paraíso" são óptimos. Já "purgatório" é muito pior do que "inferno", pelo menos no nome. Um hábito que não entendo é agradecermos dizendo "obrigado". A palavra é bonita, mas a ideia é muito má. Outra que até hoje ninguém me explicou é porque se escreve "muito" e se lê "muinto". As notas musicais são perfeitas: "dó, ré, mi, fá, sol, lá, si", mas se precisar de usar um "sustenido" ou uma "semi-fusa", a coisa desafina. "Delírio", "sonhos", "algodão", "oceano" são belas palavras fugidias. Já "fugidia" é uma palavra horrorosa. Uma detalhe fascinante na linguagem em geral são as palavras polissémicas. São vocábulos de dupla personalidade, que acumulam funções completamente diferentes. "Banco" pode servir para guardar dinheiro ou para sentar. "Manga" de camisa ou fruta. "Andar": verbo ou piso de prédio. "Piso" por sua vez pode ser também do verbo pisar. "São" do verbo ser ou de santo. E mais: "nó", "salto", "canto", etc. Lewis Carrol brinca com maestria esse jogo de significados em Alice no País das Maravilhas.
A criação de novas palavras realiza a evolução de uma língua. Eu, por exemplo, estou há dias a cantarolar uma palavrinha simpática que o Nuno Markl inventou, "catitividade" e até já disse à minha colega bloguista Kátia que vou passar a chamar-lhe "Catita" pela tão elevada taxa de "catitividade" que ela tem. As gírias também são renovadoras. Uma palavra que hoje tá na rua, na boca do povo, amanhã pode estar num romance ou até num discurso de posse de uma alta patente do estado. Ah pois é. E esta hem?

(Respiração) Suspensa

Thursday, September 14, 2006 | 0 Comments

Ontem, com a intenção de beber uns copos com amigos, fomos até ao Casino. No mesmo instante em que nos acomodávamos nas cadeiras, fomos surpreendidos por um magnífico espectáculo, ali mesmo à nossa frente, no meio do bar circulante (sim, circula de facto, qual carrossel mágico, movendo-se suavemente para nos levar a ver a sala de várias perspectivas e aos espectáculos que decorrem, isto tudo com uma chávena de chá verde entre os dedos e a conversa morna e agradável de amigos). Do tecto pendiam duas faixas brancas que Andrea usava como asas, em movimentos tão suaves quanto poderosos, como uma valquíria alada a sobrevoar os seus domínios. No mundo dela emudecemos, esquecemo-nos de pedir o que queremos beber, esquecemo-nos do que íamos ali fazer. Suspensos, ali ficamos. Como se as suas asas nos tomassem a alma, que, como um decalque, surge nos traços que desenhava no ar, como se os nossos olhos já não tivessem outro suporte senão o seu gesto, assim ficámos, suspensos. Não fosse o nosso sopro quebrar o encanto do seu voo.


"A verdadeira arte do novo circo é a proposta do Casino Lisboa para Setembro. Assim, no dia 1, estrearam-se Andrea Engler, com um número de Aerial Tissue, e Marin Magne, com Aerial Straps. No dia 16, será a vez de Elena apresentar um exercício de Aerial Contortion. Tudo isto no Arena Lounge! Suspensa em duas faixas de seda branca, Andrea Engler executa um ballet aéreo que capta a atenção do público até ao último minuto. Nascida em Berlim, Andrea Engler propõe uma elegante coreografia, com invulgar precisão estética e dramática. A ver até ao dia 15 de Setembro!
Mestre reconhecido da modalidade, Marin Magne já esteve em evidência no Arena Lounge, no passado mês de Abril. As melhores acrobacias de Aerial Straps estarão, agora, em destaque até ao dia 10 de Setembro.
Com o acompanhamento de um professor russo, Marin Magne começou por estudar acrobacia aérea com faixas em Paris, especializando-se em trapézio. Posteriormente, associou a sua experiência ao esforço físico e desenvolveu o espectáculo Straps & Sculture.
A arte acrobática de Elena estará no Arena Lounge, de 16 a 30 de Setembro. Visualmente muito apelativos, os exercícios de Aerial Contortion distinguem-se pela habilidade e elegância da interveniente. " in Portal Lisboa Jovem

Desa_finando-se...

Wednesday, September 13, 2006 | 0 Comments

Se você disser que eu desafino amor,
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
Só privilegiados tem ouvido igual ao seu,
Eu possuo apenas o que Deus me deu
Se você insiste em classificar,
Meu comportamento de antimusical
Eu, mesmo mentindo devo argumentar,
Que isto é bossa nova, Que isto é muito natural
O que você nao sabe, nem sequer pressente,
...
Você com a sua música esqueceu o principal,
Que no peito dos desafinados
No fundo do peito bate calado,
Que no peito dos desafinados,
Também bate um coração.
António Carlos Jobim e Newton Ferreira Mendonça
1 - Amigos com letra maiúscula
2 - Sorrisos
3 - Piquenicar
4 - Gelado numa taça larga
5 - Cinema
6 - Sonhos
7- Molengar no Starbucks
8 - Viajar
9 - Caipinhas doxinhas doxinhas
10 - Surpresas
11 - Dançar
12 - Celebrar datas importantes (mesmo que sejam inventadas)
13 -Estar apaixonada
14 - Livros (muitos e bons! de poesia, romance, romance histórico...meus, dos outros, venham eles!)
15 - Lençóis lavados
16 - Cantarolar (baixinho...porque não tenho grande voz)
17 - Cerejas
18 - Fotografar
19 - Canetas, lápis e afins...
20 - Caipirinhas de morango
21 - Música
22 - Desafios
23 - Bloggar-me
24 - Orquídeas brancas
25 - Roupinhas novas
26 - Queijinhos e presuntinhos....tapas...mnham!
27 - Google (onde encontro tudo, excepto aquilo que perco)
28 - As luzes da cidade à noite
29 - Katering
30 - Bombokas de morango
31 - Aprender coisas novas
32 - Pipocar
34 - Beijos na testa
35 - Fazer festinhas
36 - Sushi
37 - Canecas
38 - Chá quentinho entre os dedos frios
39 - Madrid
40 - Apanhar conchas
41 - O cheiro morno das velas
42 - Tostas de atúmmmmmmmm
43 - Gomas que picam na língua
44 - Roubar massa do bolo com o dedo antes de ir ao forno
45 - Escrever
46 - Enviar postais
47 - Bolas de sabão
48 - Banho quentinho ao fim do dia
49 - É segredo....
50 - Saber quais são as tuas :)

Mythologies

Tuesday, September 12, 2006 | 0 Comments

Descobrir o trabalho de Patricia Barber é simplesmente descobrir um reduto onde deliciar os sentidos e deixar escorrer o tempo para fora do sangue. Não é por acaso que é considerada uma das melhores vocalistas de jazz da actualidade, mas o seu condão estende-se à voz e às letras carregadas de ironia, amores e humores ardentes. Mythologies, o seu mais recente trabalho está a ser considerado nos EUA como um contributo marcante na história do jazz, pela fusão inovadora entre a nova música clássica e o jazz, com o timbre particular dos idiomas populares do mundo. Cada canção é um quadro traçado sobre cada personagem das Metamorfoses de Ovídio, um prado extenso onde a música e a filosofia se unem na tecitura de um corpo chamado Arte.

"Imagine if you'd never heard jazz before.... you stumbled in after work for a drink.... you might think that jazz is an Ancient Greek music.”
Patricia Barber

http://musicstore.connect.com/album/612/Patricia-Barber/Mythologies/500000000000020648552.html

Pareço falar de mim...

Monday, September 11, 2006 | 0 Comments

Agora, onde? Agora, quando? Agora, quem? Sem perguntar a mim mesmo. Dizer eu. Sem pensar. E dizer que são perguntas, hipóteses. Ir em frente, dizer que é ir, dizer que é em frente. Será possível que um dia, vá lá, um primeiro passo, eu tenha apenas ficado num lugar de onde, hábito antigo, costumava sair para ir passar dia e noite o mais longe possível de minha casa, e nunca era longe. Pode ter começado assim. Nunca mais farei perguntas a mim mesmo. Julgamos estar apenas a descansar, para depois agirmos melhor, ou sem ideias feitas, mas passado pouco tempo vemo-nos impossibilitados de fazer seja o que for. Pouco importa como isto aconteceu. Isto, dizer isto, sem saber o que foi. Talvez não tenha feito mais do que confirmar um velho facto consumado. Mas não fiz nada. Pareço falar de mim, mas não sou eu, não é de mim.

Samuel Beckett, O Inominável

Save It For A Rainy Day

Monday, September 11, 2006 | 0 Comments

Pretty little hairdo don't do what it used to
Can't disguise the living
All the miles that you've been through
Looking like a train wreck
Wearing too much makeup
The burden that you carry
Is more than one soul could ever bear

Don't look so sad, Marina
There's another part to play
Don't look so sad, Marina
Save it for a rainy day
(...)

You neve make your mind up
Like driving with your eyes shut
Rough around the edges
Won't someone come and take you home
Waiting for a breakthrough
What will you set your mind to?

We stood outside the Chinese restaurant
in the rain
Don't look so sad, Marina
There's another part to play
Don't look so sad, Marina
Save it for a rainy day
...

Save It For A Rainy Day, Jayhawks

apesar...

Friday, September 08, 2006 | 0 Comments

Apesar dos anos me pesarem no contorno dos olhos e me curvarem as costas, há algo inexplicavelmente dócil de uma fé inabalável que não conhece Deus algum, que se mantém impenetrável ao torpor dos dias e ao caldo inodoro do conformismo. Apesar da correnteza dos dias me ter engolido em garfadas grandes os sonhos e do desgaste de fazer em contra mão o destino, apesar das horas me arrancarem a cada instante a pele e o rosto tão igual, ter por dentro ossos que se quebram e se solidificam em ângulos novos. Apesar dos momentos em que me esqueço e me perco no caminho mais simples, e me quedo na cama cansada de arrastar o corpo entre escombros de ilusões e desejos. Apesar dos momentos em que me faltam as palavras e com elas o ar, apesar dos momentos em que se emaranha a vontade e a queda. Apesar das mãos estendidas, abertas que estendo, apesar de fingir para a vida sentidos que a vida não tem, porque a vida é circular como os lagos profundos. Apesar dos azuis e lilases, das investidas e dos esgotamentos, apesar de mim, de ti, do que foi e do que há-de vir…Apesar das palavras deixarem entre si espaços inabitados nunca poderei lá morar. Apesar da mãe e do pai e dos irmãos aqui todos a sorrirmos na moldura envernizada a esmalte caro, não haver família. Apesar do intenso cheiro a éter a latejar na minha cabeça, apesar dos silêncios e das ausências, apesar do amor que nunca veio para ficar e dos corações que nunca ouvirei bater junto ao meu, apesar da vida e da morte, do rosto pálido de força exangue, do violino, do piano, da relva e do chão, apesar do apesar…eu respiro, eu fico, eu acordo e morro, renasço, sem princípio nem fim…

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