Com um brilhozinho nos olhos

Wednesday, February 27, 2008 | 1 Comments

Com um brilhozinho nos olhos e a saia rodada
escancaraste a porta do bar
trazias o cabelo aos ombros passeando de cá para lá
como as ondas do mar.
Conheço tão bem esses olhos e nunca me enganam,
o que é que aconteceu, diz lá
é que hoje fiz um amigo
e coisa mais preciosa no mundo não há.

Com um brilhozinho nos olhos
metemos o carro muito à frente,
muito à frente dos bois
ou seja fizemos promessas trocamos retratos
trocamos projectos os dois
trocamos de roupa, trocamos de corpo,
trocamos de beijos, tão bom, é tão bom
e com um brilhozinho nos olhos
tocamos guitarra p'lo menos a julgar pelo som
E que é que foi que ele disse?
E que é que foi que ele disse?
Hoje soube-me a pouco, hoje soube-me a pouco.
Hoje soube-me a pouco, hoje soube-me a pouco.
passa aí mais um bocadinho
que estou quase a ficar louco
Hoje soube-me a tanto, hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto, hoje soube-me a tanto
portanto,
Hoje soube-me a pouco

Com um brilhozinho nos olhos, corremos os estores
pusemos a rádio no "on"
acendemos a já costumeira velinha de igreja
pusemos no "off" o telefone
e olha, não dá p'ra contar mas sei que tu sabes
daquilo que sabes que eu sei
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos parados depois do que não te contei

Com um brilhozinho nos olhos
dissemos, sei lá
o que nos passou pela tola [o que nos passou pelo goto]
do estilo és o "number one"dou-te vinte valores
és um treze no totobola [és o seis do meu totoloto]
e às duas por três bebemos um copo
fizemos o quatro e pintámos o sete
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos imóveis a dar uma de "tête a tête"

E que é que foi que ele disse?

...E com um brilhozinho nos olhos tentamos saber
para lá do que muito se amou
quem éramos nós, quem queríamos ser
e quais as esperanças que a vida roubou
e olhei-o de longe e mirei-o de perto
que quem não vê caras não vê corações
com um brilhozinho nos olhos
um amigo que é coisa que vale milhões.
E que é que foi que ele disse?...

Sérgio Godinho

1 comentários:

Lancelot said...

AQUILO QUE EU NÃO TE DISSE


Disse que às vezes tanto sabe a pouco.

Que não há mais espaço para serenas despedidas.
Nem para polidos cumprimentos.

Que não há mais tempo para refrear temporais.
Nem para erguer vedações.

Que não há mais sensatez para evitar sofrer.
Nem para cerzir desculpas.

Que não há mais ironia para disfarçar encantamento.
Nem para negar rendição.

Não te disse, na altura, porque receei.
Sentada, imponente, a dois passos da cobiça que me dominava,
Iluminavas a madrugada.

Agora sei porque temi subir as escadas de lava.

É que, por muitos holofotes que se abrissem sobre ti,
Por muitos “flashes” que te capturassem o movimento,
Por muitos “néons” que publicitassem a tropelia,
Nenhum ofuscaria a certeza de teres sido amada.

Esse brilho, furtivo, no olhar,
Denuncia apenas que isso já tu sabes.

Aquilo que eu não te disse,
Fica entre os dois.

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