Esta tem sido uma época de reflexão e de reconciliação comigo e com os outros. Aprofundei um pouco algumas reflexões de modo a abrir a porta a uma forma de estar mais tolerante e mais madura. Até ver! ;) Mais feliz, pelo menos.
A diferença entre algo imperdoável e perdão reside na responsabilidade que atribuímos a nós mesmos. Quando consideramos algo imperdoável, colocamos fora de nós a responsabilidade do acto de perdoar. Ou seja, colocamo-nos fora enquanto agentes "facilitadores" da situação. Tanto quanto nos abstemos enquanto sujeitos passíveis de perdoar ou não. É como se estivesse fora do nosso alcance e controlo e vivesse por si mesmo: "É imperdoável!" que é o mesmo que "Não tenho qualquer responsabilidade ou controlo sobre o acto de o perdoar ou não".
Quando nos colocamos dentro da situação como sujeitos, atribuímos a nós mesmos a responsabilidade de assumir a nossa quota parte. De perdoar ou não. Perdoar, no fundo, é assumir a responsabilidade de seguir em frente com uma decisão que implica vermo-nos como agentes. Agentes da nossa própria posição de "vítima". Mesmo em situações em que achamos que fomos meros inocentes, injustamente prejudicados por outros. Mesmo quando seria "imperdoável". É puxarmos a nós essa decisão.
Perdoar e desculpar são também actos diferentes. Desculpar é retirar a culpa a alguém que se assume como responsável e consciente das suas próprias culpas. Desculpar é um acto mais simples e exterior. Perdoar é algo de uma natureza mais abrangente e interno, por assim dizer. Mais grave na essência e mais duradouro na prevalência. Claro que por vezes não queremos sequer ouvir o pedido de desculpa dos outros, tão cegos estamos com o nosso próprio ego. Nesse caso, se o outro já pediu desculpa sinceramente e se controlou os seus actos de forma a corrigir a situação, a nossa decisão de não o desculpar e de ficar a remoer nisso fica por nossa conta e risco.
Ultimamente perdoei algumas coisas que considerava imperdoáveis. A mim e aos outros. E sinto-me muito melhor. Não vejo nisto um acto de arrogância ou de poder (não sou um deus para perdoar, mas como também não acredito em nenhum deus, está resolvido) mas de humildade e aceitação da minha própria responsabilidade. Quando tiramos aos outros o peso e o colocamos em nós, mesmo em situações em que o mais evidente seria partilhar a culpa ou atribuí-la aos outros, acaba por ser uma atitude verdadeiramente libertadora. A sério.
Acredito que perdoar é um acto de força interior.
No fundo, não reside nos outros mas em nós essa capacidade de poder ir além do nosso ego ferido. De recordar o acontecido sem mágoa. Nos outros só tem de residir a vontade sincera de nos reconquistar e de tentar não repetir os mesmos erros que nos magoaram no passado.
Ainda bem que o fiz, bem vistas as coisas.
Afinal, a vida é um passeio curtinho e mais vale ter companheiros de viagem de quem gostamos por perto. Mesmo que tenham feito umas parvoíces pelo caminho, acredito que isso não os define.
Afinal, de que estrelas caímos nós, para nos termos uns aos outros aqui?

7 comentários:

Luís said...

Uma coisa poderosa é a coerência e persistência na atitude de que "para a frente é que é caminho".
A tua luz e positividade são uma inspiração.
Um beijo enorme do Luís.

Neptuna said...

Amei este texto.. todas as palavras me fizeram sentido.. perdoar é das acções mais libertadoras que podemos sentir. beijinhos

ps: vou ler novamente!!

Mei said...

Luís,
No fundo é com base nesse princípio que tento levar a vida. Ás vezes tenho recaídas e também sucumbo ao egoísmo, à parvoíce e ao dark side. Mas depois caio em mim e liberto-me :)

Perdoar é de facto muito libertador Neptuna, porque não retirando a culpa, assume-a e edifica com ela a força para seguir em frente. Perdoar não é esquecer a culpa. É integrá-la como parte de nós e dos outros e usá-la construtivamente. Isso liberta-nos muito mais do que qualquer outro sentimento de acusação ou ressentimento. Só é preciso querer. E para viver bem é só preciso isso mesmo.
Bjinhos!

ianita said...

"...a nossa decisão de não o desculpar e de ficar a remoer nisso fica por nossa conta e risco."

E basicamente, não desculpar ou não perdoar é deixar que aquele acontecimento continue a viver dentro de nós. E permitir que alastre, que nos povoe o coração e os pensamentos...

Eu tento fazer o exercício de me pôr no lugar do outro... tento entender... sou uma pessoa sem rancores... desculpo, perdoo, mas não esqueço.

Posso não ter rancores, mas tenho memória... Acaba por ser um sistema de auto-protecção... é uma luz de alerta que fica na minha cabeça...

Mas e quando a pessoa nem assume que errou? Quando a pessoa não pede desculpas? Devo desculpar na mesma e seguir caminho?

Tenho tentado também... e a verdade é que tenho perdoado toda a gente no meu caminho, excepto a mim própria.

Bonito texto Mei... como sempre.

Beijinhos

Mei said...

Ianita,
É isso mesmo, miúda! Não perdoar é deixar a mágoa habitar-nos.
Às vezes as pessoas nem sequer pedem desculpa, ou porque nem se deram conta que nos magoaram ou porque simplesmente não fazem a mesma avaliação que nós do seu erro. Podem ainda, em última análise ser apenas orgulhosas e casmurras.
Em qualquer dos casos, cabe-te decidir o que queres que fique a habitar em ti. No fundo por vezes desculpo facilmente outras pessoas por mim, pelo meu próprio bem-estar e consciência.
Eu também acabo por desculpar facilmente os outros. A mim mesma também é um problema maior.
Mas não quer dizer que esqueça. Acho que todas as aprendizagens são válidas. Também podemos perdoar com todas as nossas forças alguém mas decidir manter na mesma distância por uma questão de segurança.
É perfeitamente legítimo.
Beijos Ianita.
Obrigada pela tua passagem por aqui, que muito nos honra sempre.

Voz das Estrelas said...

Conheço pessoas k n deixam passar uma! Que são o cúmulo da exigência c/ os outros. Que têm a mania que podem atirar pedras a todos. Pessoas em relação às quais, se caímos na desgraça de errar em alguma coisa, podemos pedir desculpa 100 xs, de forma arrependida e sincera e nada! São pessoas k se têm em demasiada conta. Na hora de errar, elas, k nunca erram, também nunca pedem desculpa. Com essas, tento não guardar ressentimento, mas às vezes é mm complicado perdoar. Gostei muito do texto Mei. Tocou na "mouche" em muita coisa k tenho aqui engasgada ;) Well Done!

Mei said...

Voz das Estrelas,

Também conheço umas quantas assim. Poucas felizmente.
Se pedimos desculpa sinceramente e as pessoas mantêm uma posição irredutível e não querem sequer ouvir-nos, paciência. Temos de aceitar, mesmo que custe.
Tenho pena... mas são pessoas com quem não vale a pena insistir, pois nunca seremos virtuosos como elas. E ainda bem!
Não me parece que haja condições para continuarmos amigos, porque eu, da minha parte vou continuar a ser muito pouco virtuosa e vou continuar a dar umas calinadas valentes aqui e ali. E estou disponível para desculpar as dos outros. Portanto só espero que, quem é realmente meu amigo, saiba ver-me para além desses momentos em que não estive tão bem e desculpar qualquer coisinha ;)
Bjinhos!

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