My sister's eyes

Thursday, March 23, 2006 | 1 Comments

Quando era pequenina, quando eu acordava, a minha irmã já estava acordada. A minha irmã era alta, mas a sua face roçava sempre a minha, bochecha com bochecha, narizinho com narizinho num esvoaçante bom dia. A minha irmã tinha olhos azul-sorridente. Sempre. Às vezes eu acordava rabujenta pelo troar impertinente do despertador e havia aquele mar sereno a fazer-me florescer um sorriso nos cantos da boca. A minha irmã acordava cedinho, tão cedo que eu tinha sempre a impressão do robe dela ser feito de seda e alva madrugada. Saía do quarto em bicos de pés sorrateiramente para não me acordar. Encontrava-a uns largos minutos mais tarde no toucador em frente ao espelho. Encostava-me à fresta da porta a espreitar sorrateiramente até ela se aperceber da minha presença e me convidar a entrar. Eu entrava e ficava ali, com os braços em volta dos joelhos no banquinho mais perto a vê-la delinear minuciosamente cada linha, cada traço na margem líquidas dos olhos. Primeiro o pó da base espalhado numa almofadinha rosada, depois uma cor sobre a outra e aquele olhar já de si tão belo, floria como um jardim de sede saceada, depois o risco, o traço negro do lápis a conter aquela imensa massa de água e depois o rimel a acentuar cada pestana como se lhe vestisse um espartilho de gala. E enquanto pintava ria muito e contava-me histórias, eu acenada feliz sem me apetecer falar, embalada pelos seus chilreios de andorinha primaveril. Seguia-a até ao closet em passinhos de bailarina. Entrar no closet era para mim como entrar num livro de história em que a meio todas as princesas se tinham escapulido deixando para trás gavetas de onde se esperguiçavam os mais belos tecidos, os mais delicados desenhos, o mais feminino recorte. Parecia que um exército de fadas tivera a custurar durante o nosso sono aquelas pecinhas de cores inebriantes. Tinha medo que se desfizessem com o meu toque desajeitado, mas ela pegava-lhes como se lhes prolongasse a essência e fizessem ambas parte do mesmo pó de estrela.
Gesto a gesto, crescemos as duas à sombra do lusco-farrusco dos candeeiros e daqueles momentos forrados a gargalhadas cúmplices e caixinhas cheias de pequenos tesouros.

1 comentários:

ana said...

tão bonito :D
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Mei and Arawn