Fragmentos de um Prelúdio da Alegria

Wednesday, February 21, 2007 | 1 Comments

Era uma vez…no estranho mundo do faz de conta.
Era sexta-feira. Do alto da montanha a casa que havíamos escolhido para este encontro erguia-se imponente no seio pedrado da calçada negra, em plena serra. O ar que deitava pela boca desenhava nuvens fugidias, sopros de calor naquela montanha pintada de verde e terra. A viagem foi animada, doseada por aquela ponta de excitação que não nos deixa dormir numa véspera de excursão da escola mas ao mesmo tempo exigia concentração ao nosso condutor. Serpenteámos a encosta íngreme, como se de um caule de feijão interminável se tratasse. Quando chegámos era de noite e da chaminé saía um fumo esbranquiçado que anunciava o calor dentro daquela casa de ar tão familiar e acolhedor.
No dia seguinte, ao anoitecer, a bruma desceu e com ela um sentimento estranho tomou-nos de assalto. Como um feitiço, todos nos metamorfoseámos em seres alados, feitos de pluma e fantasia: anjos endiabrados e demónios carentes, gangsters duvidosos e dançarinas de salon provocantes, gueishas delicadas e samurais corajosos, polícias dominadoras, senhores das trevas e rainhas dos malditos, bruxas brincalhonas, meninas de escola traquinas, meretrizes sedutoras, piratas audazes… Todos tinham o seu lugar nesta história onde cada um encaixava na perfeição, na sua diferença dos demais, na sua peculiaridade inconfundível e no seu poder encantatório.
Tudo começou num banquete organizado pelo Senhor das Trevas e a sua Bruxa favorita, pelos seus congéneres no Japão, a Gueisha Mei e o nobre Samurai e pela Domadora de Leões e o seu amante Turista por quem esta se havia apaixonado quando o seu circo passara pelas Américas. Estes seis improváveis amigos, muitas vezes já apanhados por perigosos feitiços e encantamentos decidiram que era hora de chamar a si a Convenção Anual da ISA (Irmandade dos Seres Alados), a qual reunia os principais líderes do mundo da fantasia que viviam nas suas peles humanas, de comuns funcionários públicos, gestores, empresários... e que apenas em ocasiões muito especiais e controladas se revelavam nos seus super poderes de criaturas diáfanas que eram. Assim se deu inicio aos trabalhos e assim se decidiu que era necessário criar um ritual iniciático que confluísse num sentimento de alegria generalizado, o qual constituiria o chamamento às almas de um verdadeiro uníssono de eternidade. E assim foi feito. Os cânticos eram inebriantes, da pele fizemos pétalas perfumadas com aroma de canela, do corpo fizemos seda, do toque fizemos a nossa própria música. Da boca soltámos a alegria, do canto dos lábios tomamos o sabor do mel, dos passos suaves e ondulantes traçamos as linhas da sedução. Da noite fizemos dia, e com a nossa alegria contagiante curámos todas as preocupações mundanas. O mundo dos afectos desceu nesta noite mágica a todos os humanos e queimou por dentro todos os medos e aflições.
Quarta-feira teremos de apanhar as cinzas.
E assim era uma vez no mundo das fadas.

1 comentários:

Chihiro said...

Nada dura mais que uns momentos. Poucos. Muito poucos. Há pessoas a provar roupa neste momento e a correrem para a caixa com medo que a roupa passe de moda entretanto. Nenhuma música dura mais do que uns dias no top. Já ninguém consegue aprender a letra de uma canção. Todos os automóveis com mais de seis meses parecem iguais ao Ford T. Há livros publicados no mês passado que hoje já estão na secção dos clássicos.A fugacidade impera na actualidade tornando escassos os minutos e mudando a percepção da contagem do tempo, contudo, que haja sempre espaços alados como este a roçar a cristalização do que de melhor podemos extrair de nós, da felicidade e da única eternidade que teremos - a felicidade.

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Mei and Arawn