O labirinto do fauno

Tuesday, March 06, 2007 | 1 Comments

Para aqueles que como eu já estão habituados a esquisitices, e sobretudo às esquisitices de Guillermo Del Toro, este filme é algo expectável. Na linha de Hellboy, Blade 2, Cronos, Mutação e, principalmente, A Espinha do Diabo, este universo fantástico de criaturas míticas profundamente trabalhadas e fabulásticas cai que nem ginjas na imaginação dos mais sonhadores. Existe em Del Toro uma tendência macabra em ferir-nos os olhos com imagens de violência duvidosa, propensas ao mau-estar e à náusea mas sempre com uma preocupação estética exemplar. É uma espécie de esteta à la série B. Confesso que tenho estomâgo fraco e que a atracção destes filmes em mim seja idêntica à da traça pela luz. Este é um exemplo de um caldo cultural único que parece juntar na mesma panela a crueldade estetizada de Goya até as circunstâncias escabrosas da literatura de H. P. Lovecraft, onde cabem a Alice no País das Maravilhas, A História sem Fim, Labirinto e As Crónicas de Nárnia.
Extremamente lírico, “El Labirinto del Fauno” conta uma história fantástica que se apresenta como fuga aos horrores de uma guerra sangrenta (os anos 30 da Guerra Civil Espanhola), mas que ninguém pense que por oferecer uma fantasia o filme é leve. Muito pelo contrário, é um filme intenso, duro e acutilante, sem ponta do sabor açucarado dos contos infantis e conta até com um vilão extraordinário (fantástico trabalho de Sergi López) -um oficial fascista, mau por natureza, sem sequer um pingo de bondade ou humanidade.
Ofélia (Ivana Baquero), uma menina fascinada por contos de fadas, descobre um misterioso labirinto e com ele um mundo onde a realidade e o imaginado se interseccionam numa contiguidade que os torna parte do mesmo. Porque ao mesmo tempo que conhece um universo paralelo, de fadas, seres estranhos e missões a serem cumpridas, Ofélia também é apresentada às monstruosidades da realidade, sintetizada na figura caricata de seu padrasto, Vidal (Sergi López). O mundo real, contudo, é filmado de forma mais rude e tenebrosa pois nenhuma criatura do universo fantástico pode ser equiparada à sede sádica de Vidal.
Cada uma das narrativas caminha em paralelo sem uma alterar a outra. A fantasia será sempre uma forma de resistência à realidade, mas não uma estratégia de transformação. Está mais para refúgio e, na visão do filme, essa solução é similar à dos rebeldes na floresta. Tanto os guerrilheiros em luta como Ofélia no labirinto dos seus livros e da sua imaginação recusam-se a pertencer a uma determinada ordem. No entanto, se existe um elogio à rebeldia como ponto de partida, a desobediência, tanto para o oficial fascista como para o fauno, é algo a ser punido. Em um e outro mundo, existem regras rígidas, embora no da fantasia haja uma segunda chance. Não deixa de ser paradoxal ainda que, enquanto se luta na floresta por uma república democrática, na fantasia a consagração esteja na monarquia. Todo o percurso e todos os desafios vividos por Ofélia são para que seja reconhecida e confirmada como princesa do mundo das trevas.

Sem fantasia, sem imaginação, sem histórias de encantar, sem alguma crença em algo fora da matéria, a vida fica mais difícil. Essa é mensagem deste nosso refúgio onde todos os dias escrevemos e também a difundida pel' O Labirinto do Fauno.
Imperdível meus amigos.
http://www.sapo.pt/especial/olabirintodofauno/

1 comentários:

gui said...

olá...realmente este é sem duvida um filme excelente..adorei o teu blog os teus textos .parabéns

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