Se o mundo estivesse para acabar deveria ser por agora. O vento sopra forte, derrubando 8 dos nossos 11 bambus, a chuva fustiga com violência as janelas e o chapéu de chuva com a vareta torta já era. Tínhamos mais 4 que entretanto fomos emprestando a amigos que tinham de sair a meio de chuvadas. Cá por casa chove. Pois, dentro de casa. Exacto! Porque ainda não conseguimos chegar a consenso com o condomínio sobre a malfadada obra que terá de cobrir devidamente os terraços que servem de cobertura ao prédio.
É uma casa muito engraçada, não tinha tecto, não tinha nada! Já dizia a canção.
O tempo está mauzito mas há algo muito pior que o tempo chuvoso, os programas patéticos da televisão, pior ainda que as músicas dos Delfins (que finalmente acabaram!) Chegamos nós, num dia destes, com as calças a pingar e o cabelo que parece ter sido lambido por um grupo de 10 labradores e, dizia, entramos  num qualquer serviço público para resolver uma maleita administrativa, a última coisa que podemos ostentar são sinais exteriores de felicidade. Isso é que não pode ser, meus amigos.
Sorrir, conversar com o vizinho na fila de espera, cantarolar, apresentar modos bem dispostos tais como a proliferação de "bons dias", "como está?", "amanhã vai estar melhor" e outros comentários minimamente positivos e é logo um convite a sermos atendidos a pontapé pela senhora nariguda, de casaco de malha beje (mas isso é côr?) e meias de descanso azuis escuras que nos vai atender à paulada verbal a seguir. "Então é para o quê?" começa, sem um "Boa tarde" ou "Em que posso ser útil?"... respondo: "Olá boa tarde. Gostaria de verificar uma cobrança indevida de impostos que me chegou pelo correio. Como pode verificar a empresa encerrou actividade em 2006". Resposta digna de um Einstein: "Se fosse indevido não estaríamos a cobrar não acha?" Depois de se levantar com ar misterioso e ajeitar os óculos na ponta do nariz, puxou a saia para baixo e sumiu por detrás de uma prateleira cheia de arquivos cinzentos com etiquetas brancas. E eu fiquei, juntamente com mais 30 pessoas à espera que a senhora voltasse. Continuei na conversa com um senhor idoso que teimava em perguntar-me coisas sobre o tempo e porque choveria a potes hoje. "É aquilo do aquecimento global sabe menina?" "Pois, deve ser, é pena é não aquecer nada!" Ríamos os dois como se tivessemos 6 anos. Ele há coisas deliciosas...
A nariguda de cabelos cinza volta e diz com ar inteligente: "A empresa encerrou actividade em 2006". Respondo "Sim, exacto, foi o que lhe disse." Ao que a alminha responde: "Se encerrou em 2006 porque é que tem esta dívida de impostos de 2008 para pagar, hum?" Achei que devia ter levado um gravador! Para a próxima levo mesmo, que isto dava um grande episódio dos Contemporâneos ou para o "Coisas que acontecem" do Markl.
E continuou: "Está para aí com um ar todo feliz, com isto por pagar? E já viu o tempo hoje, cheguei toda encharcada aqui à repartição porque perdi a carreira e só às 5 é que saio!"
Ah-Ah! E então entendi tudo. A senhora, que depois vim a saber chamar-se Maria das Dores, queria cobrar-me impostos por eu estar feliz! Porque detesta a vida dela. Porque tem de andar de carreira e sai às 5. E provavelmente porque se chama Maria das Dores e foi marcada à nascença para sofrer.
Sorri o meu melhor sorriso e disse-lhe com toda a simpatia que consegui reunir: "Vamos lá recomeçar... O dia está chuvoso, a senhora chegou encharcada, mas ainda assim está muito bonita. Tem de me dizer como consegue."
E foi ver aquela repartição virar o Paraíso. O colega dela sorriu, ela sorriu e murmurou um "Oh, muito obrigada, é que tinha ido ontem ao cabeleireiro." O velhote sorriu. Eu sorri. A Maria das Dores olhou para o computador e passou-me um papel dizendo: "Pronto, já anulei a cobrança. Era indevida de facto. Fique com o nosso número, se voltar a receber alguma coisa, ligue-me, sou a Maria das Dores Lopes. Tenha um boa tarde."
Fiquei a sorrir com a ironia certeira do nome dela.
Há coisas fantásticas não há? A gentileza é uma delas!
Dedico esta foto às Marias das Dores Lopes que por aí andam. Para a próxima que forem ao cabeleireiro, experimentem outras cores para além do cinza. 
Eu já escolhi, quando for velhota, vai ser lilás!

2 comentários:

Isa said...

:D
É assim mesmo! Pagar má disposição com boa vontade e beleza.
A foto está demais também.
Já me fartei de rir aqui sozinha, feita maluquinha!
Bjs com chuviscos aqui do Nuerte!

sininho said...

Viva a boa disposição.. Gostei da foto.. :)

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