Tempo? Qual tempo? II

Wednesday, November 29, 2006 | 1 Comments

Para onde corres?
Não sei.
Não sei como somos apanhados por essa queda mas sei que nos leva a lugares que não compreendemos, onde os outros não são feitos da mesma pele que eu. Sei que não conseguirei respirar porque o ar não é aquele que preciso, sei que não conseguirei ver claramente pois a claridade é de outra substância que não conheço. Sou como uma visitante alienígena neste mundo de sombras, de cartadas dançantes com músicas que não sei dançar. Sei que sou o estranho, o inadequado. Sei que por muito que me disfarce de carta valiosa não serei mais do que parte do bluff. Esforço-me a cada dia por ver melhor, respirar melhor, dançar melhor, jogar melhor como se isso valesse por si alguma coisa, ou como se no final da queda houvesse algum corredor mágico com portas de saída em que poderia finalmente alcançar uma realidade melhor. Será que a realidade de que me visto hoje não me deixará rota e nua numa qualquer sarjeta fria?

1 comentários:

Chihiro said...

Havia a levíssima embriaguez de andarmos juntos, respirávamos de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a nossa própria água. Andávamo-nos por ruas e ruas falando e rindo de mãos nos bolsos, falávamos e riamos para dar matéria à levíssima embriaguez que era a alegria de ter sede. Por causa dos obstáculos do caminho, às vezes tocavam-nos, e ao toque a boca abria-se ainda mais de admiração. Como nos admirávamos de ser tão bom estarmos juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não ter tempo. Tudo se transformou em não ter vontade. Tudo se transformou em não ter mais gestos para dar. Veio a grande dança dos erros. As palavras desacertadas. Procurava e não via. Ela não via que ela não vira, que, estava ali, no entanto. No entanto estavam todos ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e grande barulho dos carros, quando abriam a boca soavam buzinadelas insistentes, quanto mais erravam, com mais aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham deixado de prestar atenção, só porque estavam distraídos. Só porque, o que era urgente deixou de ser urgente. Havia outras coisas urgentes agora, coisas tão duras que as mãos doíam só de lhes pegar. Tão duras que as mãos deixaram de ser capazes de pegar noutras mãos. Aqueles que antes falavam do vazio dos que haviam partido. Partiam agora. A ausência faz-se sem sequer sair do lugar. Tudo porque quiseram ser, eles que eram. Talvez fosse preciso aprender de novo. O telefone não toca. É preciso sair de casa para que a carta chegue, mas se a carta chegar e tu nunca estiveres, talvez o carteiro se sente a chorar na laje do passeio e nunca mais faça cantar a campainha. É que o teu não ter tempo, põe em causa todo o tempo que ele se demorou no caminho para vir até à tua porta. Quando o telefone finalmente tocar, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo porque quiseram ser, eles que já eram.
O chá arrefeceu.

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