"O cinema destrói a imaginação". Esta afirmação é do próprio Saramago que resistiu anos à venda dos direitos de adaptação do seu romance, Ensaio sobre a Cegueira.
Blindness foi a película de abertura do Festival de Cannes. Dirigida por Fernando Meirelles, classificada por uns como "deprimente", para outros "ambiciosa" e dirigida a "coleccionadores". Certo é que não deixou ninguém indiferente, não fosse esta uma obra nobelizada em 1998. Para já fazemos aqui um pequeno apanhado do livro, que foi o que me pediram hoje. Não sei se a tensão emocional e a questão filosófica por detrás do romance será igualmente intensa no filme. O comentário acerca do filme ficará para outros episódios do nosso estaminé.
O romance aborda o surgimento de uma inédita praga: uma repentina cegueira que se abate numa cidade não identificada, inexplicável e incurável. A "cegueira branca" — assim nomeada pois as pessoas infectadas nada mais veêm que uma superfície leitosa — manifesta-se primeiramente num homem sentado no trânsito e, lentamente, espalha-se pelo país. Aos poucos, todos acabam cegos e reduzidos, pela obscuridade, a meros seres lutando pelos seus instintos. À medida que os afectados pela epidemia são colocados em quarentena, em condições desumanas, e os serviços estatais começam a falhar, a história segue a mulher de um médico, a única pessoa que não é afectada pela doença.
O romance mostra de forma crua o desmoronar completo da sociedade que, por causa da cegueira, perde tudo aquilo que lhe dá forma como civilização e, (tal como em
A Peste, de Albert Camus) mais que comentar as facetas básicas da natureza humana à medida que elas emergem numa crise de epidemia, o Ensaio sobre a Cegueira mostra a profunda humanidade dos que são obrigados a confiar uns nos outros quando os seus sentidos físicos os abandonam. O brilho branco da cegueira ilumina as percepções das personagens principais e a história torna-se não só um registo da sobrevivência física das multidões cegas, mas também das suas vidas espirituais e da dignidade que tentam manter. Mais do que olhar, importa reparar no outro. Só dessa forma o homem se humaniza novamente.
Na contracapa: "Se puderes olhar, vê. Se podes ver, repara.", citado do "Livro dos conselhos", de El-Rei Dom Duarte. Há qualquer coisa de profundamente socrático nesta obra. Fica o convite à leitura de alguns excertos do livro:

"Quando o médico e o velho da venda preta entraram na camarata com a comida, não viram, não podiam ver, sete mulheres nuas, a cega das insônias estendida na cama, limpa como nunca estivera em toda a sua vida, enquanto outra mulher lavava, uma por uma, as suas companheiras, e depois a si própria."
"Não lhe parece que deveríamos comunicar ao ministério o que se está a passar, Por enquanto acho prematuro, pense no alarme público que iria causar uma notícia destas, com mil diabos, a cegueira não se pega, A morte também não se pega, e apesar disso todos morremos."
"Quando o director veio ao telefone, Então, que se passa, o médico perguntou-lhe se estava só, se não havia gente por perto que pudesse ouvir, da telefonista não havia que recear, tinha mas que fazer que escutar conversas sobre oftalmopatias, a ela apenas a ginecologia lhe interessava."
"O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos, Quem está a falar, perguntou o médico, Um cego, respondeu a voz, só um cego, é o que temos aqui. Então perguntou o velho da venda preta, Quantos cegos serão precisos para fazer uma cegueira. Ninguém lhe soube responder."
"Lutar foi sempre, mais ou menos, uma forma de cegueira, Isto é diferente, Farás o que melhor te parecer, mas não te esqueças daquilo que nós somos aqui, cegos, simplesmente cegos, cegos sem retóricas nem comiserações, o mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos, Se tu pudesses ver o que eu sou obrigada a ver, quererias estar cego, Acredito, mas não preciso, cego já estou, Perdoa-me, meu querido, se tu soubesses, Sei, sei, levei a minha vida a olhar para dentro dos olhos das pessoas, é o único lugar do corpo onde talvez ainda exista uma alma, e se eles se perderam"
"Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem"

Notas sobre José Saramago:

Eu descobri tarde Saramago. Saramago também se descobriu tardiamente para a literatura. De mecânico de automóveis a funcionário público, só tardiamente começou a escrever. A saber escrever. Autodidacta, crítico, mordaz, filósofo, criativo, forjou o seu estilo inconfundível, gerou inimizades entre as faixas mais conservadoras, principalmente entre o Vaticano e a comunidade judaica. Em 2003, o crítico norte-americano Harold Bloom, no seu livro Genius: A Mosaic of One Hundred Exemplary Creative Minds considerou José Saramago "the most gifted novelist alive in the world today", referindo-se a ele como "o Mestre". Declarou ainda que Saramago é "um dos últimos titãs de um género literário em desaparecimento". Conheçam-no melhor aqui.

3 comentários:

ana said...

Eu já tentei ler Saramago por algumas vezes. As tentativas tiveram sucesso no caso do Memorial do Convento e menos resultado com o Ensaio sobre a Cegueira. Concedo-lhe o brilhantismo, mas não deixa de ser difícil. Fiquei entusiasmada agora com o teu texto e definitivamente terei de fazer um esforço por me adaptar, sobretudo à forma de escrita. Porque as ideias valem a pena.

Jorge Bicho said...

Uma história, um filme, um conto, um quadro, visto por mil olhos, escutado por mil ouvidos, tocado por mil mãos. Como pode ser igual, se cada um é diferente. Amei ler amor em tempo de cólera do GGM, caí na patetice de ver o filme à procura do mesmo. Nada igual - outros olhos, outros ouvidos, outras mãos. Já agora já ouviste algo escrito por ti, dito por quem não te conhece??

Mei said...

Olá Jorge,
Tens razão. Não podemos comparar formas tão diferentes de sentir. Ainda por cima através de formas tão distintas de expressão como o são a escrita e o cinema. O melhor é disfrutar cada uma por si, na sua totalidade e individualidade. É assim que encaro as minhas obras preferidas transformadas em filme, por exemplo. Transformadas! Exacto. E ainda bem.
Sim, já ouvi algo escrito por mim, lido e descrito por outras pessoas, e é todo um outro planeta. Tentei em vão explicar: "não era bem isso, não entendeste bem..." Mas entendeu, à sua maneira, com as suas lentes de me ler.
Obrigada pela visita. Adoro passear pelo teu mundo e deixá-lo entranhar-se no meu olhar.
Beijos grandes.
Marisa

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