Gosto muito de algumas palavras. São palavras que nos puxam os cantinhos dos lábios para cima, que acarinhamos como o pêlo fofo de um gatinho cada vez que as dizemos. Até damos várias sonoridades e entoações quando as dizemos a alguém. É como partilhar o doce preferido.
Gosto da palavra menina, evoca-me as pessoas do norte, a sua simpatia e amabilidade. Gosto de "menina" pela sua leveza, pela forma como é simples e carinhosa. Gosto do sorriso brincalhão com que é dito quase em jeito de interrogação " a menina dança?"
Gosto muito da palavra "atum" mas dita carregando do "tuummm" como se fosse uma palavra de guerra, uma incitação ao que de mais valente temos. É algo que associo ao ronronante Hobbes que não resiste à tosta de atuummm, armadilha inevitável tramada pelo traquina Calvin.
Ora "traquina" e "reguila" são outras palavras da minha preferência. Lembram-me longas tardes na rua, a jogar ao peão, ao mata e a fazer carrinhos de rolamentos na beira do passeio, que depois usávamos para descer à "vertigem da velocidade" rua abaixo. Lembra-me os joelhos arranhados e a cumplicidade de não responder às 5 chamadas que a mãe já fez da janela.
"Xilofone" é outra das minhas preferências, é tão musical e tão frágil, lembra-me uma caixinha de música que a minha ama, a D. Laurinda, refúgio protector de todos os putos traquinas da rua, tinha em casa, com uma bailarina pequenina que rodopiava sobre si mesma ao som de uma música que nunca mais esqueci embora não faça ideia de quem a compôs. Ainda a canto muitas vezes para dentro quando as coisas apertam.
Gosto da palavra "rodopiar". Faz-me lembrar a minha gatinha persa, dançarinhando sobre as suas pantufinhas enquanto se enrosca nas minhas pernas pela manhã. Rodopiar tem vento e água dentro.
Há palavras que são assim, janelas para outras e outras, janelas abertas sobre a nossa memória, postais de evasão sobre os telhados, as portas, as ruas, os dias. São palavras grávidas de vida.

3 comentários:

Sayuri said...

As palavras
"São como cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?"

Eugénio de Andrade, Poemas

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